Análise e reflexões sobre os filmes Casino e Goodfellas, de Martin Scorsese

Eu quero aqui trazer algumas reflexões minhas sobre esses dois filmaços do Scorsese: Goodfellas e Casino Na minha opinião esses são clássi...

Desabafo

Melancolia

Não adianta tentar fugir desse sentimento. Parece que quanto mais o repelimos, com mais força ele volta. Tentar esquecê-lo é fazê-lo crescer até se tornar tão pesado que não se consegue mais levantar da cama.

Eu sempre o carreguei comigo, querendo ou não, sabendo ou não. É ficar feliz e já pensar o tempo todo que essa felicidade vai acabar. É ganhar algo bom e saber que aquilo será corroído pelo tempo. É amar e saber que um dia esse amor pode muito bem se transformar em ressentimento.

A consciência de tudo que nos cerca ao mesmo tempo que é uma dádiva para humanidade é também sua própria maldição, sua depressão profunda, sua eterna fonte de insatisfação.

Sim, não é segredo que nunca estamos satisfeitos. Mas, na pessoa melancólica essa parte que falta em todos nós está sempre presente na forma de um luto. Luto pelo que não se sabe direito o que é, ou o que se perdeu. 

Eu entendo que preciso pensar e que a vida é sempre charada a se resolver. Por que não posso simplesmente aproveitá-la?

Eu tenho uma ansiedade sempre presente. Ela escapa no meu bom humor e nas gargalhadas quando estou com meus amigos. Eu valorizo cada minuto com eles e com essa menina por quem tenho um amor platônico. Essa insatisfação maior que mim mesmo é o que faz certos momentos brilharem mais que ouro - mas a que custo? Essas memórias que tenho com os amigos ou no quarto da amante são cristalizadas pelo sentimento que tenho ao saber que tudo acaba um dia, mas espero que acabe como uma linda estrela-cadente ou como um explosão super-nova. Afinal de contas, todo o amor do mundo só existe e existirá dentro de nós. 

Essa tristeza que tenho não é só um sentimento. É um contexto, é uma casa, é um cômodo, é um quarto, é uma pessoa... Eu não sei mais ao que recorrer para tentar silenciá-la. Eu tento tudo que posso e parece que é sempre a mesmo resultado - "it all returns to nothing". Talvez apenas a morte a silencie, uma vez que a tristeza sou eu mesmo. Aprender a conviver com ela é essencial, aceitar que ela sempre estará ali, que ela sou eu, mas que não será impedimento para eu viver e quiçá até ser feliz, como sou e já fui muitas vezes. 

No fim das contas talvez seja essa maldição que sempre me impulsionou a melhorar, a estudar, a me dedicar mais e a pensar profundamente. Os humanos não mudam pelo bem, só através do sofrimento. Como explicou Freud, chega em dado momento que aquela dor se torna tão insuportável que mudar se torna a única opção.


"In the end, your demise was peaceful." Fear & Hunger


Texto por Lucas Matos, futuro médico.






Posers católicos

 Acho que eu sempre fui de idealizar as coisas que eu resolvia fazer. Esse foi o caso também com o Catolicismo, quando realizei uma "auto-conversão" na minha juventude. Tinha esperanças de reencontrar um sublime perdido, uma sociedade de amor fraterno, ou simplesmente um grupo onde eu poderia me encaixar e conversar com pessoas que partilhassem ideias semelhantes. 

Durante anos participei dos mais variados grupos católicos, desde os da RCC aos Neo-trads, Sociedade Pio X e Arautos do Evangelho. Como homem, eu ficava surpreso quando me sentia sozinho no meu sufocamento, principalmente ao observar como outros homens pareciam não compartilhar da mesma sensação de asfixia. Minha natureza mais livre revoltava-se em ter que constringir-se em movimentos tão rígidos que arriscavam operar uma auto-castração. Pois os instintos naturais eram vistos como impuros e vis. Até por pensamento se poderia pecar; portanto era necessário vigiar nisso também.

Para resumir a ópera, eu estive ligado de perto, durante um tempo, a alguns grupos religiosos católicos e aqui nesse post desejo expressar algumas impressões que obtive. 

A Apologética Católica tende a se fundamentar bastante na atração pelo paradoxal, como quando afirmam que "os últimos serão os primeiros", "aqueles que se fazem pequenos são feitos grandes", "Cristo teve que morrer para salvar a humanidade", "o homem deve ser escravo de Cristo para ser livre", etc, etc, etc... Sob uma ótica limitantemente dicotômica tais conceitos se tornam facilmente compreensíveis e, diante de uma cultura um tanto focada em satisfazer prazeres mais imediatos, os mandamentos católicos soam como o caminho a ser seguido. Isso atraiu muitos jovens para movimentos como a RCC e aos ritos tradicionais da missa tridentina. 

O problema é que a experiência cristã tornou-se nos dias atuais tão inorgânica quanto Ácido Cianídrico. Durante o que Sir John Glubb chama de "Age of Intelectuallism", é natural que haja uma guerra acirrada por narrativas. Quando pessoas têm medo de encarar a vida sem uma narrativa coerente pronta, acabam rapidamente recorrendo a narrativas já pré-fabricadas e testadas, ao invés de procurarem confeccionar a sua própria. O erro inicia quando inocentemente acham que a narrativa católica é absoluta, e não conseguem enxergá-la pelo que ela realmente é: apenas mais uma narrativa, um filtro pelo qual se enxerga o mundo. Aliás, um filtro bastante condicionado a tempos de estabilidade social e onde sacerdotes possuam controle da narrativa. Numa "Age of Intellectualism" exacerbada pelo fluxo de informações da internet, o fato de alguns jovens estarem se "tornando católicos" é um testamento magnífico à capacidade humana de rejeitar a realidade, hipnotizar-se e aceitar uma narrativa em prol da validação social (isso dentro dos pequenos grupelhos católicos do qual ele participa) e da paz de consciência.

Paulo de Tarso, que estudara nas mesmas escolas de simbolismo gregas que Otaviano Augusto (sobrinho de Júlio César e fundador do Império Romano), com seu instinto sacerdotal de judeu, foi hábil em confeccionar uma narrativa que tivesse apelo para com os marginalizados cada vez mais numerosos das bordas e fronteiras do Império Romano. A moralidade cristã é aquela da pessoa que ganha a luta com uma rasteira. Assim como em Sócrates e Platão, a chandala fica feliz em saber que, se não tiver vencido algo ou alguém no mundo físico e real, ao menos no mundo metafísico terá uma vitória final - nisso está o verdadeiro e primitivo substrato de boa parte do cristianismo -. Para a confecção dessa narrativa, foram utilizados elementos fortemente simbólicos, tirados do judaísmo e de outras religiões. Claro que Paulo de Tarso não fez tudo sozinho, uma vez que o Cristianismo só foi realmente adquirir um arcabouço intelectual sério com S. Agostinho e mais posteriormente S. Tomás de Aquino e outros Doutores da Igreja, alguns, como no caso do boi mudo, tendo como motivação combater a retórica islâmica que vinha evoluindo muito mais que a cristã. 

Folie à deux seria uma explicação psicológica para o delírio coletivo que leva pessoas a acreditarem em resquícios de conceitos medievais ultrapassados que obviamente só servem para manipulação, por mais que no começo pudessem sustentar algum significado transcendente, como por exemplo: santidade do Papa em pronunciamentos sobre o dogma; sacramentos; mãos santas do sacerdote; absolvição dos pecados; revelações; milagres; etc, etc, etc... Técnicas óbvias de controle social e monopolização da narrativa. O Catolicismo é uma franquia espiritual, assim como MacDonalds é uma franquia de comida. Sim, você poderia se alimentar somente de MacDonalds, mas faltariam nutrientes no seu corpo e o melhor para a saúde seria ter uma alimentação variada. O Catolicismo, assim como outras religiões, visam monopolizar nossa dieta espiritual.

É perigoso prostrar-se em um estado humilhado e submisso numa sociedade que é violenta contra os homens, querendo justamente destruir seu ego. Para completar, na visão cristã moderna o homem é visto como um burro de carga que deve tomar sobre si o peso de sustentar o lar. Muitos colegas meus foram manipulados a casar-se e ter filhos. Enquanto as pessoas do passado enxergavam casamento e filhos sob um prisma pragmático, hoje os cristãos fantasiam essas instituições, enxergando-as como um plano de Deus, ou então algo espiritualizado e metafísico, ou então um complementarianismo necessário entre o masculino e o feminino - mais uma vez, apenas narrativas. O problema é quando a narrativa lhe atrapalha a viver a realidade - aí quer dizer que ela não presta mais. Casamento era um investimento e filhos eram uma aposentadoria. Desde pelo menos o século 19 que o casamento não faz mais sentido. Sem o instinto de posse, casar-se jamais valerá a pena para o homem. Você só cuida bem daquilo que é seu. Sem isso, a tendência é o homem ser escravizado dentro do casamento.

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Após todo essa Diss Track, gostaria de ressaltar que não sou contra o catolicismo. Acredito que o catolicismo floresça em sociedades coletivistas que, devido a situações de bonança ou estabilidade, possam se dar ao luxo de favorecerem, seja emocionalmente, espiritualmente ou materialmente às pessoas que praticam o "amor ao próximo". Claro, existe autêntica empatia, mas tomar um sentimento como um dever absoluto é doentio. Observa-se então que os princípios cristãos desmoronam em sociedades como a brasileira atual. Porém, tais princípios, sempre incipientes, servem muitas vezes como entrave para o desenvolvimento das pessoas, com regras morais auto-contraditórias e que levam mais ao sofrimento do que à satisfação.

Creio também que certas partes do cristianismo tenham sido aparelhadas a fim de combater o fenômeno da "décadance", sobretudo nas classes mais altas que lidarão com  o que Nietzsche chama de "anarquia dos sentidos". Nesse ponto, o nobre hedonista é lembrado de sua fraqueza e também da impermanência das coisas. A doutrina o instrui à moderação e/ou restrição absoluta; a libido desgovernada é domada no celibato ou na monogamia bem reforçada socialmente. A ordem é a palavra chave no cristianismo.

Quanto a Jesus, creio que tenha sido um filósofo e líder que combateu o "résentiment" e a injustiça. Infelizmente, sua mensagem foi bastante adulterada com fins propagandísticos. O evangelho trocava de molde conforme o povo, degradado ou sadio, pobre ou patrício, com os quais ia entrando em contato. Versículos super obscuros, e que dizem muito sem dizer nada. Como um médico que recomenda o paciente com intestino solto a decorar o hino do Brasil ou cortar as unhas como remédio. No fim das contas, é mais fácil dominar uma ovelhinha adoecida. Sempre desconfio de grandes instituições internacionais e opulentas. Acha que adquiriram esse poder fazendo o bem e dizendo a verdade? Geralmente, como em empresas do porte do MacDonalds, essas são boas em predar no que há de mais frágil no ser humano.

Apesar de tudo, eu acredito na bondade singular e indivual do ser humano. Nas pessoas que não levantam bandeiras quando ajudam o outro, mas o fazem porque o vêem como semelhante.








Análise e reflexões sobre os filmes Casino e Goodfellas, de Martin Scorsese

Eu quero aqui trazer algumas reflexões minhas sobre esses dois filmaços do Scorsese: Goodfellas e Casino

Na minha opinião esses são clássicos atemporais e esses dois filmes têm aspectos em comum um com o outro e que, para mim, mostram também um pouco do próprio caráter do diretor, Martin Scorsese.

Goodfellas é um filme sobre um gângster. Baseado em uma história real, o filme retrata a realidade de membros da máfia durante os anos 60 nos Estados Unidos da América. Eu acho muito bom esses tropos de três companheiros, como no filme Cidade de Deus com o “trio ternura”. Eles são Tommy, Henry e Jimmy.

Todos ali são baseados em pessoas reais e os eventos que se desdobram também.

A minha reflexão vai se basear muito nesses personagens.

O Henry desde pequeno nunca viu outro caminho que não fosse a máfia. Antes de sua adolescência terminar ele já sabia muito bem o que que queria com sua vida; e ele não entra nessa vida com medo, receio ou com qualquer escrúpulo, a máfia vem para ele tão naturalmente como a puberdade. Ele sobe na hierarquia conforme vai ganhando a confiança dos mais velhos e a sua responsabilidade e poder, obviamente, crescem juntos. Ele vive uma vida relativamente sossegada e consegue manter seus esquemas e seus roubos sem ser incomodado pela polícia, que é facilmente apaziguada através de suborno.

Depois de muita insistência da parte de seu amigo Tommy, o Henry acaba concordando sair em um encontro duplo com Tommy só para não desagradar o amigo, porém na segunda vez o Henry resolve que tinha algo melhor para fazer e não aparece no jantar e o “date” dele, que é a Karen, fica lá sozinha segurando vela pro Tommy e a outra judia que estava com ele. A Karen fica furiosa e vai até o restaurante italiano onde ficavam os mafiosos e ela confronta o Henry diante ali de vários mafiosos, e nesse momento ele enxerga nela uma mulher selvagem, com paixão, com fogo, e isso o atrai.

Com segurança eu posso dizer esses personagens do Scorsese são bem movidos pelo que Nietzsche chamaria “vontade de potência”. Eu não me atreveria dizer isso se o Platinho já não tivesse feito essa análise com o Lobo de Wallstreet. Na realidade deles, observa-se que depois de um tempo o que começa a valer mesmo não é o dinheiro, e sim o poder. O poder de se livrar da polícia; o poder que comanda respeito dos outros; o poder de influência. Quando Henry vê Karen, ele vê uma pessoa com poder, e não apenas isso, ele vê também um desafio. Nietzsche que diz que o homem gosta de um jogo, e não existe jogo mais perigoso que a mulher. Portanto, para Henry aquele seria mais um jogo.

Pode aí observar como as apostas e os jogos são onipresentes na vida dessas pessoas. O momento que eles se sentam ali para jogar pôker, esse é o momento em que eles transformam a própria realidade em síntese, pois os jogos de azar resumem bem simbolicamente a vida deles; um símbolo do que eles perseguem diariamente, como se ali aquela mesa de pôker fosse o altar onde a hóstia seria consagrada na missa

A busca que eles têm por mais e mais daquilo vai além de ininterrupta, ela é uma busca religiosa.

Voltando aqui ao Henry, pode observar como as mulheres com quem ele se envolve são desafios que escalaram de nível. As goomas, que são as amantes, já são um elemento comum na vida dele, porém ele resolve dificultar as coisas quando ele experimenta brincar de casinha com uma das amantes, dá um apartamento maneiro para ela, e sem receios começa a passar mais tempo com a amante do que com a esposa. Depois, ele se atrai por uma das amigas da amante, a que mais tinha aparência de cheiradora ali. E daí ele termina com a amante anterior e resolve ficar com a viciada em drogas.

O filme tem essa redpill sobre a natureza feminina. No caso da Karen, quando o Henry pede para ela esconder a arma que estava coberta de sangue, ela admite que “that turned me on”. A Karen é mais uma que será regida pela vontade de potência, sem lastro moral. Pois a liberdade dela vem através da entrega à sua natureza feminina profana, que a faz escolher não o bom esposo judeu e certinho, e sim o badboy gângster italiano. Se formos aplicar a vontade de potência do Nietzsche, Karen e Henry poderiam ser considerados, nesse sentido, aparentemente mais livres que a maioria das pessoas, pois deixam o seu lado animal à solta.

O Henry poderia continuar tendo uma vida extremamente sossegada. Porém, mesmo sendo proibido por Paulie, ele resolve vender uma droga que ele não deveria vender.

Tem algum filósofo que diz que o homem é uma máquina de desejos insaciável. O Henry não consegue deter, aliás, nem tenta, deter seus desejos, e ele segue em frente obliterando tudo, até a si mesmo.

Jimmy e Tommy vão na mesma direção, deixando um rastro talvez até mais destrutivo.

O Tommy simplesmente mata todo mundo que vê pela frente, e já nem tenta controlar seu humor.

Jimmy chega a conclusão que em vez de pagar as pessoas o dinheiro que ele deve ele pode simplesmente matá-las e ficar com o dinheiro kkk.

Uma coisa que os filmes do Scorsese definitivamente não fazem é atribuir julgamentos morais em cima dos personagens, talvez por isso essa cena no júri em que o Henry quebra a quarta parede e meio que chama a nós, a audiência, para julgar o caso dele. Uma coisa que particularmente esse filme Goodfellas vai fazer, é você ponderar se houve alguma redenção para o Henry, pois no final da vida ele parece na verdade bastante insatisfeito com a segunda chance que ele teve. E essa para mim é uma das mensagens mais fortes de goodfellas, que é aquela coisa de que, sim, você pode acreditar que foi perdoado por ter levado a vida que levou, mas a vida que você levou não te perdoa tão facilmente. As marcas, as cicatrizes da vida no glamour da máfia se veem claras, não só no rosto cheirado de coca do Henry, mas na infelicidade dele com uma vida normal.


Agora para refletir um pouco sobre o filme Casino, eu queria comentar que o filme inicia com a música da “Paixão segundo São Mateus” de Johann Sebastian Bach e que essa história, a história que a música está contando, que é a paixão de Cristo, serve como um cenário de segundo plano dos eventos que vão desenrolar no filme. Isso na minha visão, é claro, eu não estou pegando essa opinião de nenhum crítico.

Pois bem, dizer que os filmes do Scorsese constantemente fazem uso do Sagrado e do Profano não seria nada de novo. E mesmo assim eu quero apontar para a presença de alguns elementos religiosos e profanos que ajudarão a trazer um modo diferente de ver o filme. Quando o Ace “Rothstein” chega em Las Vegas, uma coisa que ele comenta é que Las Vegas faz para ele o que Lourdes faz para deficientes e cadeirantes. Aqui ele se refere aos milagres de Nossa Senhora de Lourdes, na França. Só que observem o seguinte: enquanto Lourdes cura as enfermidades FÍSICAS das pessoas, Las Vegas cura as enfermidades ESPIRITUAIS do Ace Rothstein. Ali ele deixa para trás o passado, as dívidas, as preocupações, as pessoas que ele passou a perna. Las Vegas cura isso. Para Ace, Las Vegas é o ápice de sua carreira, mas a cidade deve ser respeitada e há bastante trabalho para ser feito. Já o seu amigo Nicky vê Las Vegas com outros olhos; ele a vê como intocada, esperando alguém para vir e dominá-la.

Nicky é o defensor de Ace Rothstein, é ele quem age nas ruas para preservar o mundo etéreo do Casino Nicky é o pontífice – mas é também o arquétipo perfeito do gângster: se ele quer algo, ele toma; se ele não gosta de algo, ele destrói, e isso passa cada vez mais a ser o mantra da sua vida. Quando ele vê que Ace Rothstein está abandonando essa forma de agir ele pergunta ao Ace “don’t you have balls?” “Você não tem culhões?”. Ali nessa cena, Ace Rothstein é o homem que, como Nietzsche diria, estaria abraçando a moralidade dos fracos, se escondendo do perigo e enquanto isso dedicando-se a ajudar a sua pecadora,– que é a ginger.  E Nicky é a besta, é o animal inconsequente que vive sob as próprias regras. Assim como em Mean Streets, também do Scorsese, eu acho que seria seguro afirmar que Ace também sofre do savior complex, o complexo de salvador. No entanto, sem precisar examinar muito à fundo, notam-se em alguns personagens do Scorsese qualidades bastante centradas na figura de Jesus Cristo, como no caso do Henry em Goodfellas que sempre age como intercessor, tentando evitar violência desnecessária; do trio de gângsters ele é o mais sensato e também o único que consegue ter compaixão. Ace Rothstein, porém, não tem a disposição de absolver nem mesmo o filho do Senador, aquele rapaz meio lerdo que trabalhava do Casino, e indo contra seus próprios interesses, ele expulsa o rapaz do seu reino, e não cede nem mesmo diante das súplicas humildes do comissário.

No Casino, para mim, um dos momentos fatais é quando Ace Rothstein resolve confirmar a confiança de Ginger três vezes, sendo que ele deveria na verdade ter feito isso com seu amigo, Nicky, com o qual ele estava perdendo o contato. E ele também confia a ela a CHAVE para as suas jóias preciosas que ficam no guardadas no banco. Inclusive um momento no filme, um dos poucos, que comove é uma cena do Nicky na escada arrependido de ter se envolvido com a Ginger, e o arrependimento dele ali para mim parece ser excepcionalmente sincero.

 

Observa-se tanto em Goodfellas como em Casino um movimento de ascensão e queda dos protagonistas, em ambos por sua própria culpa, sendo que aquilo que justamente serviu como o impulso inicial para elevá-los, é também o motivo de sua queda. Só que em Casino, com o Ace Rothstein, eu não diria que seria uma queda e sim uma elevação. 

Voltando ao tema da música que abre o filme, nós podemos observar que conforme se aproxima o final, acontece uma crucificação do Ace Rothstein na mídia americana, ele passa de ser um homem louvado pela sociedade a um pária total, que vai ser rejeitado pelos amigos, por Nicky, ele também é rejeitado pelos chefes (que se assentam nessa espécie de paraíso, afastado dos problemas mais mundanos do Casino), e pela esposa, a pecadora que ele tentou e não conseguiu redimir. Porém, no final de tudo, ele retorna ao ponto onde começou, com as apostas – e ali está a redenção dele, nos jogos de azar. Ele não é Adão que foi expulso do paraíso, mas sim alguém que morreu e ressuscitou.

 Da mesma forma que um outro personagem do Scorsese, o Jake Lamotta, um homem-animal, encontra sua redenção no ringue de boxe, é nas apostas que Ace Rothstein encontra seu recomeço.


Por que Jacaré do CV?

Faz muito tempo que não escrevo aqui. A única desculpa é que eu estava ficando mais inteligente (mais forte, mais bonito) para trazer um conteúdo melhor para nosso ☭ Blog. 

Eu tinha a intenção de abandonar o blog para postar minhas coisas no instagram, pois este tem MUITO mais alcance. E talvez seja esse o problema. Meus posts logo se tornassem um pouco conhecidos seriam reportados ou então banidos pelo próprio algoritmo. E mesmo que os posts permaneçam, leitores maliciosos podem usar algo que eu disse ali para prejudicar minha vida pessoal. Vou me arriscar a isso por 10 curtidas? Não. Vou escrever aqui. Sim, logo vou começar a fazer propaganda do blog.

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Um dos mitos fundadores do que significaria SER brasileiro é uma história real, realíssima. O encontro da imagem de Nossa Senhora durante uma pesca no Rio Paraíba do Sul para mim é um dos pontos fundamentais da história do povo brasileiro, o que o une. Aquela imagem, que logo se provara milagrosa, adentraria com força no imaginário coletivo brasileiro - não é à toa que tivemos que construir a MAIOR catedral do mundo para comportar o número de fiéis.

É muito óbvio que a imagem se tornou tão popular por um propósito, que para mim é a mensagem que Deus fez por ela ser carregada, uma mensagem simples: não há barro tão podre que não possa ser consertado por Deus. Pois é isso, uma imagem de barro, caindo aos pedaços e que foi constituída. E pensar que para nos mostrar isso Deus nos envia a própria mãe??? A mulher mais repleta de beleza e glória de todas???

Acho que em parte nós, povo brasileiro, somos esse barro mutilado, e o que vai nos unir é a busca pelo nosso conserto, a busca pela verdade, que é uma busca divina - esse será o assunto de nossas conversas, de nossos colóquios, de nossas discussões.

Porém você só pode ser remendado se primeiro você se reconhecer como barro...

Sim, viemos de uma cultura civilizacional que foi a sucessora de Roma, e eu me orgulho disso. Porém a influência mais marcante, mais epidérmica, é da cidade onde você cresceu e você não consegue fugir disso. Não, amigo, seu sobrenome não te faz italiano. Seu antepassado, um pinguço do mezzogiorno, cuspiria se ele te ouvisse falando que é italiano.

O Jacaré do CV é a única arte que eu consigo olhar e ver como 100% carioca, sem influência estrangeira, um reflexo puro de uma alma revoltada, criado por alguém que, com todas suas limitações, tentou capturar o sentimento daquele grupo. Nós temos algo assim autêntico no Rio de Janeiro? Talvez a burguesia e seus imitadores pobres tenham músicas acústicas e numa ignorância abençoada sejam capazes de celebrar a vida e sua mágica (sabemos que sem álcool, maconha, sexo ou bens de consumo não conseguem) e coisas que me fazem igual aquele vídeo do carioca revoltado (https://www.youtube.com/watch?v=hkR2LM612vU) "uma falácia criada por aquela bicha enrustida do Tom Jobim... que cantava...Ipanema é tão legal, meu pai é general". Será que sou só eu que vejo que a cultura popular que querem colocar como brasileira, carioca é uma que vem de cima para baixo?

Quando Deus criou o homem, Ele o fez a partir do barro. Alguns querem se consolar achando que foi das estrelas...

Biomímica - Imitar a natureza!!!

 Numa lenda indígena, Moema e Juçara eram melhores amigas. Se Juçara fosse nadar, Moema ia junto. Se Moema fosse rezar, Juçara ia com ela. E as duas eram assim com tudo. Numa festa da aldeia, as duas se apaixonaram pelo novo chefe, Peri, mas não diziam uma à outra o nome do rapaz. 

Até que numa tarde trocaram confidências e descobriram que as duas estavam apaixonadas pelo mesmo moço. Depois da surpresa, decidiram largar o ciúme e deixar que ele mesmo escolhesse entre as duas.

Notando as meninas, o pessoal da aldeia começou a desconfiar do que se passava; o xamã conversou com elas e depois procurou o chefe. Quando perguntou a Peri de qual das duas gostava, ele ficou surpreso.

- Acho que gosto das duas...

- E o que pretende fazer? - perguntou o Xamã.

- Vamos decidir isso na floresta. Minha escolhida será aquela que acertar em pleno voo um pássaro que eu apontar.

No dia seguinte, quando apareceu uma ave branca, Peri fez sinal para as moças lançarem a flecha, que saíram ao mesmo tempo de cada arco. O pássaro caiu, com uma flecha enterrada no peito.

As setas haviam sido marcadas, para ajudar na identificação. Quando a flecha foi retirada, surgiu a vencedora. Juçara e Peri se casaram, e Moema se sentiu desamparada: não tinha mais nem a amiga, nem o seu amor. Muito infeliz, afastou-se da aldeia para chorar. Tupã ficou com pena e procurou ajudá-la.

"Sinto saudade da minha amiga e do chefe, mas não quero que vejam minha tristeza. Se me transformasse num pássaro, eu poderia ver os dois sem que eles soubessem quem eu sou."

Tupã transformou-a num pássaro comum, que não chamava a atenção. Mas quando ela presenciou a felicidade do casal, ficou muito enciumada e decidiu se afastar da aldeia; voou para o norte e escolheu a floresta amazônica como morada. Para alegrá-la, Tupã deu-lhe um canto maravilhoso: "A partir de agora, você sera o uirapuru; a beleza do seu canto vai espantar a sua tristeza."

Quando Moema fica triste, começa a cantar e se sente revigorada. Homens e mulheres procuram ouvir o uirapuru, pois sabem que ele dá sorte. Seu canto é tão poderoso que a passarinhada da floresta se cala para ouvi-lo.

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Biomímica é a prática de observar atentamente à natureza e copiá-la. No início, eu queria traçar uma relação entre o canto do Uirapuru e a música de Mozart, como se o compositor tivesse copiado o pássaro. Mas a verdade é que os dois pegam inspiração do mesmo lugar. Na raiz tupi, uirapuru quer dizer "o pássaro que não é pássaro". E de fato, seu canto chega a uns píncaros que eu nunca escutei em pássaro algum. Tão melancólico, tão sublime. Talvez por isso que tenha me lembrado de Mozart.

Acontece que Biomímica não é nada disso. No caso do uirapuru (e do Mozart também), o pássaro copia algo que não está natureza, funcionando, na minha visão, como uma espécie de mensageiro de uma voz transcendente. Não há nada igual ao canto do uirapuru. E isso só prova como a natureza é perfeita.

Por motivos como esse que o ser humano deve praticar a biomímica, pois copiar da natureza é copiar da perfeição da obra de Deus. Posso citar inúmeros exemplos de pessoas que fizeram isso.

Um caso famoso é o trem-bala japonês, Shinkansen. Em 1989, o Japão contava com os melhores trem-bala em termos de inovação. O único problema: eles eram barulhentos demais.

Para resolver isso, chamaram o engenheiro e admirador da natureza Eiji Nakatsu. Nakatsu baseou o design do trem inteiramente em três animais: A coruja, cujas penas "dentadas" serviram de modelo para o equipamento que conecta o trem aos trilhos;  o pinguim-de-adélia e sua barriga lisinha inspiraram o eixo de suporte do trem (a parte de baixo, a "barriga" do trem mesmo); e, o mais impressionante, o Martim-Pescador, que é um pássaro que mergulha na água para pegar suas presas, isso sem fazer qualquer 'splash', graças ao formato único do seu bico. E assim foi criado o trem mais silencioso e veloz que o Japão teve até hoje.

Studying Owl Wings – Monkeysee Videos

Nature Picture Library Adelie Penguin (Pygoscelis adeliae) belly sliding on  ice Antarctic Sound , Antarctica - Andy Rouse

martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona) | WikiAves - A Enciclopédia  das Aves do Brasil



O que me encanta na natureza é sua simplicidade, na forma e no conteúdo. A lua é um círculo; o sol também. Meus favoritos de desenhar quando criança. As árvores também são extremamente simples e objetivas. Eis o meu fruto: comei e espalhai. As ostras com suas pérolas, que são formadas, imagine só, de substâncias sujas indesejadas que penetram na ostra!

A natureza é um louvor a Deus, e ela me ensina que as melhores coisas são as mais simples. Quando se fala de biomímica, vejo as pessoas focando somente na parte mais material, como em inovações da engenharia, da ciência, da química, etc. Eu aqui resolvi falar do outro lado.

Como não citar as músicas de Heitor Villa-Lobos, profundamente inspiradas na mata amazônica e até mesmo uma dedicada especialmente ao nosso "Uirapuru". Eu gosto também de como a natureza ensina aquela coisa que os americanos chamam de "seize the moment", o "carpe diem", "aproveitem o dia". Eu gosto mais da palavra "seize", pois ela tem a ver com prender, agarrar. Nesse sentido, agarrar o momento e não deixar que ele passe, é fazer o melhor com ele. E o que sai quando nós aprendemos a fazer isso é magnífico. Eu mesmo agora estou aproveitando a inspiração que recebi para escrever esse texto. Não penso em escrever outra coisa; não quero; nesse momento, não pretendo cumprir outra coisa que não seja terminar esse texto bem. E assim nasce a Moonlight Sonata de Beethoven; a Eine kleine Nachtmusik de Mozart; a "Valsa do Minuto" de Chopin que imita a correria do seu cachorrinho; a melodia da Ave-maria foi pega de uma peça que essa dama se encontra a lamentar dramas mesquinhos à beira de uma lagoa. Na natureza é assim, tudo começa com uma sementinha tosca.

Lembro de uma entrevista do rapper Immortal Technique que ele conta sobre seu trabalho com crianças de bairros perigosos. Ele diz que quando chega lá as crianças só querem rimar sobre traficar drogas, atirar nas pessoas, pegar prostitutas, ostentar carros, etc. Ele não chega dizendo que isso é feio. O que ele faz é mostrar às crianças como elas podem rimar melhor sobre esses assuntos. Se querem rimar sobre prostitutas, ele tenta mostrar pra elas que aquela mulher é um ser humano. Como é a vida dela? O que fez com que ela chegasse nisso? O que lhe acontece quando ela chega em casa? Rimem sobre isso! E assim, de um tema que só teria alusões à putaria, aquilo é transformado em humanização.



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https://www.vox.com/videos/2017/11/9/16628106/biomimicry-design-nature













 











Soberba burra: a semente do pensamento revolucionário.

Se têm algo que está constantemente nas minhas buscas, digamos, pretensiosamente filosóficas é entender a mente de sujeitos como a do governador de São Paulo, Dória. Ele e seus afins. E por seus afins eu digo pessoas que seguem essa linha de raciocínio que não sei ainda que nome dar. Essas pessoas são juízes, políticos, opinadores, pessoas que apoiam a ação do Estado. Racionalista, positivista, comunista, socialista, autoritária, totalitária?? Não sei, não importa, mas pra mim isso tudo é bem claro. Vou explicar melhor.

Eu busco incansavelmente entender as motivações por trás das ações das pessoas. E com o Sr. Dória essa motivação é particularmente mais forte, me ocupa muito o pensamento aliás, pois é para mim um mistério grande, quase que como ele e seus afins fossem alienígenas. Quais são suas motivações? Quais as justificativas?? É maldade? É ganância? É dinheiro? É burrice? Ou então tudo isso e mais um pouco?

Uma história do universo da Liga da Justiça me jogou uma luz sobre essa questão.

Hora da História 

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Nessa história, um grupo de "heróis" chega à terra dizendo que precisam de ajuda para resolver uns problemas na sua própria terra, a Terra-3. A Liga da Justiça vai ajudá-los, mas quando entram no portal são na verdade transportados para uma espécie de prisão e de lá não conseguem sair. Os novos "heróis", que na verdade são basicamente opostos dos heróis verdadeiros da Liga da Justiça - Homem coruja = Batman, Ultra-man = Superman, Super-mulher = Mulher-Maravilha, Johnny Quick = Flash - são na verdade um grupo chamada Sindicato do Crime. Na terra, eles dizem para todos que a Liga da Justiça foi resolver um problema numa galáxia distante e que já voltam, sendo eles, que se proclamaram o Sindicato da Justiça, os heróis agora responsáveis por cuidar da terra, na ausência da Liga da Justiça. Eles na verdade estão aqui na terra em busca de um artefato, do qual não vou tratar aqui.

A questão interessante para mim é que eles não sabem ser maus de verdade. Na verdade, suas motivações não tem nada a ver com justiça ou injustiça, ordem ou caos. Simplesmente querem esse artefato. Acontece que eles, tomando o lugar da Liga da Justiça, passam a ser o centro de diretrizes do mundo, os detentores do poder, os protetores do povo. Só um dado interessante: O Batman sempre se opôs à intervenção da Liga da Justiça em assuntos do mundo, principalmente com relação à política. Ele sempre buscou diminuir o poder da Liga, mantê-la na sua única e simples função, de combater super-vilões. O Sindicato da Justiça não se limita a isso. A primeira ação é tomar conta da mídia. O novo repórter, Clark Kentson (Ultra-man) toma isso pra si.

E assim vai indo. O que acontece é que os vilões notam que essa nova Liga da Justiça levaria toda a ordem existente à destruição e que provavelmente no futuro que eles planejavam não haveria espaço ou liberdade nem para a pequena infração de mijar escondido na rua. Essas pessoas do Sindicato da Justiça não eram vilões. O poder ,e a ameaça que vêm com ele, agora eram diferentes, e tornariam até mesmo a vilania impossível, deixando no lugar disso tudo um gigante vazio, num futuro totalitário controlado pelo nosso Ultra-man.

O vazio é pior que levar uma surra. Pior do que sofrer bullying na escola é ser ignorado por todos. Pior do que fazer uma merda e levar umas chineladas por ela, é ter seus pais dizendo que a culpa da merda foi deles e não sua. Só receber elogios vazios e jamais uma crítica. Isso que é realmente problemático: está além da ordem ou do caos, é outro plano, é o limbo. O Sr. Freeze reclama do Sindicato da Justiça: "eles interromperam meu monólogo do mal!"; o Charada: "Eles ignoraram a minha charada!"; O Coringa "Johnny Quick destruiu o banco que eu ia assaltar". Até o Lex Luthor se revolta com eles, ele que tem os mesmos planos de controlar a terra. O Sindicato da Justiça ignora os vilões, não os enfrenta e causam mais destruição, sem querer, que eles causariam com as piores das intenções.

Mas o Sindicato da Justiça vai muito além de simplesmente querer governar o povo como um monarca ou um ditador. Para governar a terra, eles vão castrar a capacidade intelectual dos cidadãos por meio da Netflix; tirar sua força oferecendo sex libre à todos. Num determinado momento, acontecem algumas complicações do Portal de viagem espacial do Sindicato da Justiça e eles transportam UM MOTHERFUCKING PLANETA que fica tapando o sol para a terra. Ultra-man vai à TV, alternando as personalidades entre Clark Kentson e Ultra-man, para dizer "Está tudo bem, ó cidadãos. Estamos avaliando esse pequeno objeto em frente à terra, mas já avaliamos que não apresenta nenhum risco. Sigam com suas vidas normalmente." 

Alguma coincidência?


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Agora, o assunto do qual eu queria realmente tratar. Qual é a motivação para que o Ultra-man seja assim?

Dando uma olhada na história de sua origem, achamos lá as sementinhas. Na sua Terra-3, Ultra-man teve uma origem bem parecida com a do Super-man, só que diferente. Ele também veio de um planeta alienígena e foi criado por uma família do campo. Ultra-man, assim como Super-man, não conseguia se enturmar, porque era muito esquisito. Suas habilidades o distanciavam das pessoas normais. Porém, enquanto Super-man perdeu seus pais e depois conhecera Lois Lane, Ultra-man não perdeus seus pais e jamais conheceu qualquer Lois Lane. Lois Lane ajudou Super-man a entender melhor seus poderes. Ela lhe disse como ele não deveria se sentir superior a ninguém, mas servir de modelo para as pessoas, servindo-as sem esperar nada em troca, para isso ele veio para terra. Do outro lado, os pais de Ultra-man o mimavam. Diziam-lhe que ele era muito especial sim e que as pessoas não o entendiam. Que elas deveriam aprender a ser como ele; para isso, era preciso lhes ensinar obediência. Super-man não obrigava ninguém a seguir seu modelo: se alguém for mudar, é preciso que seja por livre e espontânea vontade. Os pais de Ultra-man pensavam o oposto e assim o ensinaram. O menino cresceu acreditando ser a suprassuma autoridade moral.

 Alguma coincidência? 

E aí está a semente de qualquer pensamento revolucionário, tirano, que favorece a maior ação do Estado em nossas vidas. Na essência, o que diz é: "As pessoas não são capazes de reger suas próprias vidas em comunidade, por isso o Estado deve intervir e garantir a ordem". A educação tem que ser dada pelo Estado, a saúde, a segurança, as vacinas; o casamento deve ser regulado pelo estado, a lei; devemos ter constituições, estatutos, juízes; o estado deve proteger os órfãos, o pobre, o desajustado, o doente... e por aí vai. As pessoas devem ser governadas pela obediência, pois afinal não são capazes de tomar as melhores decisões por si mesmas - esse é o papel de seres superiores, como os presentes no Supremo Tribunal Federal. Esse é o exato oposto do que eu penso. Mas aí eu boto a questão: as pessoas fazem essas coisas por maldade? Digo com certeza que não. Talvez Dória tenha ganância, queira dinheiro e nem ligue para esse tipo de coisa; o mesmo com juízes e desembargadores. Mas a base do pensamento universitário e do próprio povo segue essa lógica. Não é a maldade o verdadeiro perigo. É a burrice que sempre é a verdadeira causadora da destruição no mundo. Com a propaganda certa e falta de testosterona nos homens, as pessoas vão achando que realmente não são capazes de se auto-reger.

Não foi o diabo que destruiu a igreja católica.

Não foi o diabo que inventou a feiura das igrejas atuais e nem dos prédios getulistas.

Foi para modernizar o Brasil que Juscelino Kubitschek destruiu 90% do nosso patrimônio histórico arquitetônico.

Foi pela igualdade que votamos no Lula.

Foram os ideais de liberdade que decapitaram Luís XVI na revolução francesa e criaram nosso congresso.

Foram boas intenções que fundaram a república brasileira.

Foi para a prosperidade de Portugal que os liberais venceram a revolução do Porto.

Foi para instaurar a paz que os EUA bombardearam o oriente médio.

É para não dizer palavras ofensivas que nos ignoram na escola.

É para nos proteger que nossos pais nos mimam.

O SUS foi criado para salvar vidas.

Os radares de trânsito foram criados para salvar vidas e não apressar mais ainda as pessoas que tiveram de perder um tempo inútil parando para sucatas metálicas que medem velocidade.

Médicos que começaram a recomendar que você parasse de comer tanto ovo e em vez da banha de porco usasse óleo de soja, INFELIZMENTE, o fizeram com boas intenções.

Pessoas te contam histórias de como pobres humildes venceram na vida sendo pobres e humildes e vítimas de alguém que não é pobre nem humilde para que você seja um ser humano melhor, mais pobre e mais humilde, e não um pobre humilde que venceu na vida sendo vitimizado por isso.

De boas intenções o inferno está cheio.





O melhor momento de Cícero

"Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?"

Antes de tudo, quero admitir que não sei nada sobre política e sei pouco sobre Roma e Cícero, e o que eu escrevo aqui são só as impressões de um ignorante querendo registrar seus pensamentos. Apesar disso, acho que todos vão concordar comigo quando eu traduzir essa frase e mostrar para vocês que é a mais utilizada na política até hoje. Com isso eu quero mostrar como Roma antiga continua tão presente entre nós.

Essa pintura de Cesare Maccari, que deve ser bem famosa em aulas de latim, retórica e política, sempre mexeu comigo, desde a primeira vez eu a observei com atenção, mesmo que eu não soubesse nada de nenhum dos três. Nessa pintura, temos dois homens em destaque: um no seu melhor momento e o outro no seu pior momento. Esses homens são Cícero e Catilina. Cícero extasiado de orgulho proferia seu discurso denunciando a conspiração de Catilina contra o senado romano e Catilina escutava absolutamente desolado no seu canto sozinho. O processo levou Catilina ser condenado à morte junto com todos os outros conspiradores.

Cícero não parou de falar desse momento até o fim da vida. Vários pontos do seu discurso contra Catilina são estudados e repetidos copiosamente até hoje por políticos. O que me fez escrever esse artigo foi justamente a atenção que me chamou essa mesma frase que Cícero usou no processo ser usada na TV duas vezes nessa semana.

“Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência”

"Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?"

“Até quando, ó trabalhadores, deixar-vos-ei serem explorados pelos tiranos de terno e jatos?” - Lula em algum momento antes de ser eleito.

“Até quando, ó Raça Humana, deixareis que suas matas e florestas sejam devastadas?” - Pessoa que está preocupada em proteger a floresta da Amazônia.

“Até quando, ó Cristãos, deixareis que abusem da vossa paciência?”

“Até quando, ó pais de família, deixareis que ensinem ideologia de gênero a vossos filhos?”

“Até quando, camaradas, suportareis o jugo malvado do capitalismo?” – Lenin.

É uma frase para incitar revolução!

Essa mesma frase é utilizada com os mesmos exatos propósitos de Cícero. Quando um comunista a diz está buscando antagonizar sua classe à do outro, à inimiga. Cícero precisava daquilo, e ele sabia que Roma também, de uma certa maneira.

Segundo o historiador Caio Suetônio, desde que Cartago foi apagada da existência em 146 a.C. não restara nenhuma oposição mais à altura de Roma. É aí que, segundo ele, teria começado a queda do império. Roma sem o desejo de vingança e a força do ódio que nutria contra Cartago e Aníbal, perdia sua fibra moral e o senado se tornava corrupto. O curioso é que Caio Suetônio, a quem pertencem essas palavras, foi tido como dos governadores mais lascivos e corruptos do Egito. O que me lembra como autores igual Dostoiévski e Tolstói, que viviam afundados em pecados sexuais, foram os que melhores trataram sobre esses pecados e a castidade. Ou então como, num livro que li de Immaculé Ilibagiza, a experiência de 6 meses trancada num armário só odiando os assassinos de sua família e seus ex-amigos e até seu namorada que a havia traído (não com outra mulher, mas tentando entregá-la aos rebeldes assassinos), ela no fim de tudo foi capaz de dar o maior perdão que eu já conheci, que foi perdoar ir até a cadeia e perdoar os assassinos de sua mãe, seu pai e seus dois irmãos, enfim, ela perdoou as pessoas que lhe tomaram tudo que ela tinha nesse mundo. O mesmo eu observo no caso de pastores evangélicos que são ex-criminosos e parecem para mim os mais sinceros nas suas pregações. Justamente porque foram o que mais experienciaram o pecado a fundo, e saíram do fundo do poço redimidos com coisa a ensinar, a velha história do herói que desce à caverna e retorna com o tesouro.

Enfim, acho que Caio Suetônio acertou nisso. De fato, o senado se tornou muito mais corrupto e Roma ficou exposta, quase pedindo para que algum ditador tomasse o poder todo para si, o que aconteceu. Isso tem a ver com outro assunto que ainda quero tratar, que é a importância de o homem não sair do seu estado natural, que é a guerra. O que digo é minha experiência e a disciplina que aplico na minha vida e que me sustenta todo dia. Não quero dizer que o homem tenha que se preparar para uma guerra física eventual. O estado de estar em constante antecipação da guerra anda bem perto da paz espiritual. Isso fará com que você viva cada dia como se fosse o último, como exorta o próprio apóstolo São Paulo.

O meu ponto com esse texto todo foi para dizer que quando o homem perde de vista a guerra, ele começa a buscar falsas glórias. Cícero viveu esse tempo de paz em Roma; nunca foi um general, e fora o único ano obrigatório de serviço militar que serviu sem ver ação, jamais estivera perto do campo de batalha novamente. A busca da glória era algo na sociedade romana como a busca pela felicidade é hoje na sociedade moderna. Quando essa glória deixa de existir para ele no campo de batalha, Cícero quer essa glória “salvando” Roma das mãos de Catilina. Ele pediu para diversos poetas que escrevessem uma epopéia épica de como ele havia livrado Roma das mãos do maléfico conspirador. No fim, como ninguém quis escrever, ele mesmo escreveu.

Para mim, todo ser humano tem um desejo grande por glória. É desse desejo que aplicativos como Tik Tok se aproveitam extensivamente para atrair as pessoas. É a perversão de um sentimento puro de querer deixar um legado e de ser reconhecido. A atenção instantânea, os aplausos intermináveis, os joinhas, os elogios... Já pararam para pensar por quê tantas pessoas fazem vídeo para esses aplicativos? Será que é só por diversão ou para compartilhar seus momentos?

Não quero ser chato. Apesar de eu não usar o Tik Tok, eu uso o instagram. E não vejo problema intrínseco em nenhum deles, tudo depende da intenção da pessoa que está usando e não sou eu para julgar isso. Só que eu acho o Tik Tok particularmente pernicioso ao obrigar vídeos a serem tão curtos. Como se eu não fosse capaz de prestar atenção em algo por mais de 6 segundos. Ou então o comediante ali não consegue me manter rindo por mais do que isso...

Cícero sempre quis ser relembrado como herói do senado Romano. Não foi lembrado assim, mas hoje é muito mais famoso do que jamais imaginaria. E o nosso Tik Toker dancinha – como ele quer ser lembrado?

A verdadeira cruz está no inferno!!!

Não faz muito tempo e como alguém que de quando em vez se interessa pelo misterioso e esquecido país da Romênia, eu fiquei sabendo de um documentário romeno que sairia sobre o experimento Pitesti. De qualquer experimento sádico de governo que eu já ouvi falar, esse eu acho um dos piores. O experimento Pitesti foi um tentativa sistemática de aprender como desumanizar uma pessoa. 

Os torturados diariamente eram oferecidos algumas escolhas. Todas envolviam tortura. Alguém podia se livrar da tortura por vários meses se simplesmente negasse a Cristo diante do agente soviético.  Podiam pedir que seu melhor amigo fosse torturado em seu lugar. Os agentes queriam aniquilar primeiramente a empatia, o que nos torna mais humanos.

O que na verdade me deixou uma impressão fortíssima nisso tudo foi como alguns monges católicos aceitavam ser torturados diariamente em vez de cuspirem em uma imagem de Jesus Cristo e serem liberados da tortura. A maioria renunciou a fé, mas outros permaneceram firmes e fortes até o fim, a maioria destes padecendo no meio das torturas. Vendo isso acontecer Nicolae Steinhardt, um intelectual judeu preso naquele mesmo lugar e também submetido a torturas, se impressionou tanto que ali dentro da prisão mesmo pediu que o batizassem na fé cristã e ele se tornou monge. Ele escreveu o diário do qual eu tiro essas informações, "O diário da Felicidade", em português.

Isso me fez escrever um comentário no fórum onde esse filme foi anunciado. Não tinha nenhum comentário do post, e até hoje acho que não tem, pois pelo jeito esse documentário não teve tanta repercussão. Eu comentei "um dia eu gostaria de ter a coragem desses homens para morrer por algo maior que eu mesmo", ao que no dia seguinte recebi a resposta do próprio usuário que fez o post: "Para morrer, primeiro é preciso saber viver".



 








pitesti3

Ilustrações do experimento Pitesti




Existe uma lenda, a lenda da Vera Cruz, na região de Caravaca, na Espanha. A lenda diz que essa seria a verdadeira cruz em que Jesus Cristo teria sido crucificado e que ela possuía realmente restos mortais do corpo de Jesus Cristo, os quais foram enviados à Roma. Essa cruz é parecida com a cruz dos patriarcas, que têm dois braços, um abaixo, na altura do joelho de Cristo.

Essa cruz foi utilizada como símbolo das missões jesuícas no Brasil. Nas ruínas de São Miguel das Missões, no sul do país, se encontra uma dessas datada do século 17, inteiriça e em pé firme e forte do lado de fora das ruínas do que um dia fora a igreja de São Miguel.



São Miguel das Missões: as ruínas da maior missão jesuítica




Os jesuítas eram uma ordem de muitos jovens e com muito entusiasmo, entusiasmados demais, cheios de paixão, desejando ardentemente "morrer por Cristo". O número de mártires jesuítas nas américas chega à números de guerra. Foram ceifados no Canadá, pés de calços e muitas doenças na América do Sul, assassinados e canibalizados por tribos mais selvagens e outros que se aventuravam para o interior da Amazônia e nunca mais voltavam. Eu juro que me arrepio falando disso, porque nunca vi atos de bravura iguais, atos dignos de santos. Tem a história de um, se não me engano o nome dele era Mateus alguma coisa. Era um jovem cultíssimo, falava 7 idiomas, especialista em história da arte, era compositor, músico, artista, teólogo e também sabia navegar. Esse jovem trabalhou em algum lugar na região do sudeste brasileiro, possivelmente perto de onde foi fundada São Vicente. Esse jovem não passou um ano em território nacional e morreu de uma gripe braba que lhe congelou os pulmões. Anos de oração, estudo e muito esforço roubados pelo frio das águas de algum rio que ele botou seu pé para pegar a tal gripe. 

Tiveram outros que morreram de exaustão, tentando trazer os índios mais do interior para mais próximos do litoral, nas reduções jesuíticas (ou reducciones em espanhol, como são mais conhecidas). Há relatos de tribos de canibais se vestindo de túnicas sacerdotais, de tanto de padres que já haviam devorado, agora usavam suas roupas. Mesmo avisados pelos bons índios, os padres, abdicados da própria vida, iam pregar nessas tribos de canibais. E acabavam sendo comidos.

O desprezo pela própria vida é algo observado no budismo do oriente como o tibetano (os monges que botam fogo em si mesmos como forma de protesto) e no código bushido, dos japoneses. Guiados por esse código, em que a honra deve ser preservada acima de tudo, pilotos japoneses não hesitavam em tirar a própria vida se lançando em ataques suicida de avião ou com explosivos no corpo, conhecidos como "kamikaze".

Eu falei de tudo isso para comentar sobre o significado que essa cruz, a Vera Cruz, a cruz verdadeira de Cristo, tem para mim.

                                         History Sao Miguel das Missoes RS Brazil – Foto de Ruínas de São Miguel das  Missões, São Miguel das Missões - Tripadvisor

O braço de baixo, que é maior que o de cima e está mais perto do chão que o de cima, passa uma mensagem muito simples, a mesma mensagem que eu recebi do Romeno: Cristo sabia morrer, e sabia muito mais viver. A verdade é que viver é mais difícil que morrer. Qualquer imbecil consegue morrer, até sem querer. E isso que me leva ao título do artigo, o jogo Doom.

Um mundo pós-apocalíptico, onde seu mundo foi dominado por uma invasão de demônios bíblicos que mataram todos seres humanos do seu mundo. O mais fácil seria pegar a escopeta que te deram e estourar a sua cabeça. Mas o conceito do Doom é o mesmo dos Jesuítas, é a de respeitar a vontade divina na vida humana acima de tudo. Isso foi revolucionário no Cristianismo. Entre os romanos, caso nada mais lhe restasse para viver, era normal o suicídio. Os cristãos dizem que não. Até a mais ínfima manifestação de vida deve ser preservada. Essa manifestação de vida no Doom é você com sua escopeta na excitação do massacre que parece inacabável dos demônios, acompanhado do silêncio mórbido do Doom Guy, que jamais diz uma palavra, e só se preocupa em cumprir o seu dever, a razão de estar ali, mesmo que não haja no momento nenhuma explicação lógica para o que ele está fazendo.

“Então você andará eternamente pelos reinos sombrios, enfrentando o mal que ninguém foi capaz de enfrentar. Que sua sede de vingança nunca seja saciada, que o sangue de sua espada nunca seque, e que você nunca mais seja necessário novamente.” – Registro de Corrax 7:17


Cover art | Doom Wiki | Fandom





O melhor episódio dos Simpsons e a minha maior frustração.

 O melhor episódio da série animado dos "Simpsons" pra mim e para muitos americanos é o vigésimo terceiro da oitava temporada, "O inimigo de Homer". Esse episódio dá espaço para discussões intermináveis, até sobre a essência mesma da série animada. É um episódio que faz você simpatizar com o vilão e se questionar: "Por quê eu gosto de Homer Simpson?". Para resumir os pontos-chave do episódio, basicamente Frank Grimes é esse homem de um passado muito sofrido, pobre, que fez a faculdade por correspondência e tudo quanto conquistou foi com esforço próprio (eles literalmente dizem isso dele na TV). Frank Grimes é contratado pela Usina Nuclear de Springfield e ele é o exemplo de funcionário perfeito e leal.

Grimes começa trabalhando no setor administrativo e logo se assusta com a quantidade de erros que é obrigado a consertar nas finanças por conta da incompetência dos funcionários, particularmente a de Homer Simpson. Grimes não reclama - ele acabou de chegar na empresa, - e no começo até tenta aprender algumas coisas com Homer, que o ensina coisas como desligar a câmera de segurança para poder tirar uma soneca, ou onde colocar seu café no painel onde ele não vá derramar e como passar mais tempo no banheiro do que no trabalho.

Grimes continua trabalhando duro, consertando os erros de Homer para manter o bom desempenho da empresa. Homer é promovido pelo trabalho duro que Grimes exerceu em seu lugar e quando Grimes é demitido por um erro de Homer, o ressentimento do novo empregado chega ao ápice e ele enlouquece com a frustração acumulada.

Grimes vai até a casa de Homer com o objetivo de lhe dirigir uns insultos antes de se mudar da cidade e ir buscar outro emprego. Chegando lá sua raiva e frustração são mais ampliadas ainda: Frank Grimes que tudo que fez na vida foi se esforçar para ser sua melhor versão não tem nada e ninguém, enquanto Homer Simpson, que ganhou o prêmio de não fazer esforço algum, tem uma bela casa e uma linda família. Frank Grimes não tem nada, Homer Simpson tem tudo.

Aqui é um dos pontos do episódio que fascina particularmente os americanos. É a desilusão contemporânea com o Sonho Americano.

A maioria das pessoas, e na escola e faculdade foi o que eu sempre ouvi, pensa no sonho americano como uma família, uma casa, um carro, um bom emprego, ás vezes riqueza, sucesso, etc. Nada disso é o verdadeiro sonho americano.

O sonho americano não é material, mas se materializa. Na minha visão, o sonho americano é algo universal. É um desejo de justiça e meritocracia que todo humano tem dentro de si. Se você trabalha duro, receber a recompensa desse trabalho. A lógica é que se você trabalhar, e mesmo que seja difícil e penoso e muitas vezes não dê certo, e continue insistindo naquilo, você vai receber a recompensa. Dinheiro, reconhecimento e a bênção divina.

O sonho americano se assemelha também ao Minecraft. Onde o que você constrói é seu e quase tudo depende unicamente dos seus esforços e da sua vontade de realizar. E os Estados Unidos com suas terras livres e virgens era o lugar para sonhar assim.

A frustração de Frank Grimes é a frustração de muitos. O Brasil é o caso de um país particularmente oposto ao sonho americano. Onde os esforçados e gênios são muitas vezes literalmente desprezados e os vis e torpes são exaltados como exemplos a serem seguidos. Quase nunca isso é feito publicamente, mas o que rege o ambiente da elite intelectual no país são as emoções mais baixas, como inveja e resssentimento. Rebaixar o outro para se sentir bem virou um mecanismo de defesa comum entre qualquer camada da sociedade. Isso não digo da boca para fora, e já está documentado faz tempo, entre vários autores da literatura nacional. Tem uma parte de algum livro do Machado de Assis que as pessoas estão conversando sobre um padre e uma senhora diz, defendendo o padre dos seus companheiros de sacerdócio que eram seus algozes: "Mas o Padre João estuda tanto!"; ao que eles responderam que era porque Padre João era metido. Isso também é bem expresso no Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto quando veem estantes e mais estantes de livro chegando na casa do coronel. Quando a esposa lhe pergunta "Você vai ler todos eles?", ele responde "É só para eu parecer culto". Esse mesmo coronel adorava, usando termos rebuscados, humilhar seus companheiros militares com sua erudição.

As coisas que decorrem desse tipo de mentalidade são fonte de frustrações para mim. Uma frustração tamanha que eu jamais aguentaria fazer uma faculdade que envolvesse disciplinas de humanas que eu conhecesse minimamente. Aqui não só é permitido, mas é aconselhado que você seja ignorante no conteúdo que está cursando, e que estude somente aquilo ali que o sistema te der. O estudante se aventura para ler um Umberto Eco, pensando que vai sair da matrix da faculdade, e mal sabe que o sistema já previu esse seu movimento e deixou "A rosa e o vento" dando mole justamente ali para ele pensar que aprendeu algo sobre idade média e filosofia.

O sonho americano é quando um homem estuda ciência naval a vida inteira, estratégia, navios e guerra, e um dia tem seu conhecimento reconhecido e recebe a oportunidade de trabalhar na marinha. É o mais lógico, afinal nós buscamos eficiência. No Brasil não buscam isso e estudar de verdade é perda de tempo. Quantos talentos existem por aqui e a nação nos últimos 30 anos não tenha tido quase nenhum talento nas artes, na pintura, na literatura, no cinema? O Brasil que na década de 30 exportava música e literatura para fora mais do que hoje exporta soja. Eu não sou ainda merecedor de qualquer fama ou reconhecimento por qualquer trabalho. Tenho muito pouco a oferecer ainda. Mas o meu sonho é esse, que eu possa ter algum lugar na sociedade para contribuir com tudo pelo que eu venho me esforçando diariamente.

Porém, eu gostaria de terminar de falar sobre o episódio dos Simpsons e terminar esse artigo em esperança, não em pessimismo para o futuro. Eu amo qualquer mitologia moderna, e os Simpsons faz parte dessa nova mitologia. Nessa mitologia é bem comum que o herói seja um tanto estúpido, ou melhor - criança. Não é infantil, mas criança. Porque o reino de Deus é dos pequeninos. 

Forrest Gump, Bob Esponja e Homer Simpson tem isso em comum e são os arquétipos de heróis modernos. A sua ignorância abençoada os protege da realidade que enlouqueceu e encheu de ressentimento a Frank Grimes. Pode ser uma ignorância selecionada, também. E isso é evangélico, como quando Jesus diz para não nos preocuparmos com o amanhã, nem com nada, mas deixar tudo nas mãos de Deus. Nisso Homer Simpson é mestre. O evangelho sempre trabalha muito essa mentalidade: se não há nada mais que você possa fazer, aprenda a aceitar as coisas como são. Aprenda a gostar delas, como Homer fazendo corrida de carrinhos no trabalho. Porque a verdade é que não é nossa profissão e nem as nossas ações que definem quem nós somos, mas sim a pessoa que sinceramente conhecemos quando estamos sozinhos. Deus não quer engenheiros automobilísticos da ferrari, e sim santos com um caráter de ferro. A ferrari pode ser rápida, mas não vai te acompanhar para o paraíso.



Amaterasu e Susanoo (Simbolismo em Hanako-Kun pt.2)

 Eu gosto muito de espelhos. Ver meu rosto bonito toda manhã é um privilégio que eu passei a ter depois que resolvi pendurar um espelho no meu closet. Com exceção dos portadores de Espectrofobia, todo mundo gosta de espelhos. E os japoneses tem uma história muito bonita sobre eles.

Quando a Pangéia de Izanagi e Izanami se separaram como continentais extensões de terra, dois irmãos surgiram dessa separação das terras: Amaterasu, a deusa do sol, e Susanoo, o deus das tempestades.

Amaterasu era compassiva com nós humanos, e toda manhã lançava seus raios sobre nossas plantações, para que não passássemos fome. Ela que com sua luz dava cores ao mundo e viço aos campos. 

Susanoo era um playboy revoltado com o mundo (possivelmente por ter sido abandonado pelo pai e um pouco negligenciado pela mãe) e se comprazia em causar o caos e trazer destruição para os humanos. 

Um certo dia, Susanoo montou na sua carruagem e destruiu tudo quanto viu pela frente, deixando milhares de vilarejos em lágrimas pelos mortos e pelas plantações devastadas. Amaterasu vendo isso ficou profundamente triste. A pessoa mais próxima a ela que existia no universo, seu irmão, era um babaca e ela aos poucos perdia a esperança nos outros. Como deusa do sol, ela também via tudo quanto se passava de maldade na terra e essa foi a última gota d'água. 

Amaterasu resolveu se trancar em uma caverna e nunca mais sair. Susanoo não podia ligar menos. Continuou fazendo haves e batendo sua carruagem por aí. Mas nós humanos precisávamos dela. Sem luz, é impossível imaginar qualquer vida na terra. Então um dia a enganaram com música e trazendo uma belíssima dançarina que começou a fazer striptease do lado de fora da caverna. Todos riam e se divertiam. Isso atraiu a atenção de Amaterasu, que resolveu passar a cabeça numa fresta pra dar uma espiadinha, e, quando o fez, os homens levantaram um espelho onde ela viu seu próprio reflexo. Tendo visto seu próprio reflexo, ela se admirou muitíssimo e resolveu sair da caverna e desde então nunca mais se isolou e o sol nunca mais deixou de se levantar todas as manhãs.

"Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;
Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus." 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/5/13-16

O mundo é uma merda. Você também é, mas nem tanto assim. E se não existe nenhuma luz no mundo, você é essa luz. E algo de divino sai do que você faz, fala e cria. Você é o sal da terra e a luz do mundo.

Amaterasu - Wikipedia






O terceiro Mistério, o Inferno dos Espelhos, tem a habilidade de refletir os corações daqueles que se contemplarem nos seus espelhos. Aqueles que tiverem coração puro, escapam sem problemas, se não, o espelho muda sua aparência para refletir os medos mais profundos da pessoa, obrigando a vítima a permanecer lá para sempre. Esse mistério quer trocar de lugar com os vivos, permitindo que as mãos de manequim que foram bem sucedidas em capturar humanos ficarem com suas almas.

Não poderia haver um regente melhor para esse Mistério que o atual Mitsuba. Mitsuba é justamente o que o espelho pode representar de pior. Além de ter uma memória apagada, que faz com que o reflexo mostrado no espelho seja só um fundo branco, ele é orgulhoso sobre sua "aparência" e "fofura". Ver seu próprio reflexo com certeza lhe seria o maior prazer do mundo e enxergar os defeitos dos outros sendo refletidos no espelho intensificaria mais isso ainda. Ele sofre também de solidão. E solidão é um caminho trilhado para a soberba. Não tem coisa mais danosa pra sua fé na humanidade que contemplar e admirar sua podridão e a dos outros nos espelhos.

Para mim, por isso o terceiro mistério é o um inferno. Amaterasu ama a si mesma e depois vai ao encontro de amar os outros. A bondade que ela enxerga em si mesma, garante que essa mesma bondade existe nos outros.


















OS DOIS TIPOS DE INTELIGÊNCIA

 Existem dois tipos de inteligência: a inteligência aplicada e a inteligência geral.

Pode-se pensar nessas duas com uma metáfora. Imaginem um carro Mercedes. A inteligência aplicada é a responsável por produzir a parte mecânica do carro. A inteligência geral é o vigor criativo que nós temos. É a geral que dá ao carro suas belas curvas, que vai pintá-lo de rosa, colocar um neon em baixo, botar luzes piscantes nas rodas, e tudo que nós gostamos nos nossos carros.

 A geral é a inteligência voltada para a criatividade, a sabedoria, a arte, apreensão do transcendente, inteligência emocional, busca pelas virtudes, compaixão, poesia, etc. Porém não adianta um pintor com muita imaginação e sem nenhuma técnica.            Por isso a inteligência aplicada também é importante. No entanto, a aplicada vem recebendo doses injustas de atenção na nossa modernidade, coisa que jamais se observaria em povos antigos (ou até há pouco tempo atrás.


 

Na antiguidade existia uma divisão sobre os dois tipos de generais que você encontraria no campo de batalha: o general instintivo e o general estrategista. O general instintivo é aquele que costumava acompanhar os seus homens no meio da peleja. Geralmente eram fortes e exímios combatentes. Esse general se aproveita do páthos dos soldados. Ele com sua força e coragem impele seus soldados para frente, ductus exemplo, liderar pelo exemplo, diziam os romanos. Houve um caso, no primeiro enfrentamento entre os romanos e os gregos em que o rei e general Pirro (que cunhou o termo ‘vitória Pírrica’ justamente por causa dessa batalha) teve que se retirar no meio da batalha porque as coisas estavam esquentando demais (não esperava um exército tão bem preparado do lado dos romanos). Para não abalar a moral dos soldados – ele não queria parecer que estava batendo em retirada -, ele foi até seu melhor amigo e conselheiro Mégacles e lhe entregou a armadura, de modo que Mégacles se vestisse de rei e voltasse para a batalha em nome de Pirro. Acontece que um soldado romano desconhecido lhe enfiou a espada no peito e matou o conselheiro. Depois, vendo que se tratava do rei dos gregos (ou assim pensaram), ele empalou o sujeito e começou a balança-lo na estaca, exibindo a todos que o rei grego estava morto. Os gregos ficaram extremamente desmoralizados por causa disso, generais e outros nobres amigos de Pirro avançaram loucamente e morreram nas mãos dos romanos. Até que finalmente o rei verdadeiro retornou ao campo de batalha e acalmou os ânimos dos seus soldados. Mas até que isso fosse, já tinham morrido muitos dos seus nobres.

 Apesar da vitória grega nessa batalha (eles tinham elefantes e os romanos nunca tinham visto essas bestas demoníacas), as perdas do exército grego foram tremendas. “Se saio vencedor em mais uma batalha contra os romanos, estou completamente arruinado”.

Pirro era um caso de um Rei e general estrategista, mas que também sabia combater (ou nem tanto), um traço comum na cultura bélica grega. Porém antes dele, no século IV antes de Cristo temos um exemplo formidável de um Rei general que combinava as duas qualidades. Era Alexandre, o Grande. Alexandre fora tutelado por ninguém menos que Aristóteles. Treinou luta grega, decorou as epopeias de Homero, aprendeu a filosofar, aprendeu sobre política, teve toda educação que um nobre teria direito de receber. E no campo da batalha tinha, como diziam, a força de um leão e a coragem de uma mãe ursa, lutando como se não tivesse nada a perder, apostando tudo. Suas cargas eram decisivas na batalha. Os homens acreditavam estar cavalgando ao lado de um próprio deus ou semideus alado quando Alexandre avançava. Devia ser algo de outro mundo, realmente. Não é à toa que ele teve dos exércitos mais fiéis que eu já vi. Homens que marcharam literalmente até a Índia com ele.

Agora, vou dar um exemplo do que é o oposto disso.

Qualquer um que estuda primeira e segunda guerra mundial sabe da falta de habilidade dos generais franceses em bolar estratégias. Seus planos mirabolantes (terminar toda a guerra em 6 meses[1]) e pouco práticos levaram a casualidades enormes para o lado dos franceses. Esse é um exemplo de quando a inteligência geral foi substituída pela pura inteligência aplicada. O ambiente militar francês, dominado pelo pensamento positivista, tinha suas estratégias baseadas em raciocínios lógico-matemáticos. Se eu fizer isso, logicamente acontecerá aquilo. Qualquer general sabe que não funciona assim. Por isso que Júlio César e Alexandre, o Grande foram tão bem sucedidos. Não faziam tantos planos antes, só o básico. O resto faziam de acordo com o correr da batalha.

Outra coisa, homens não se motivam com pensamentos puramente racionais. E muito menos, por essas estratégias serem tão racionais e calculadas, quer dizer que fiquem mais fáceis de ser seguidas. O exército romano não começou construindo pontes. A primeira lição foi aceitar a derrota, se preparar para ela, e depois a disciplina para alcançar a vitória. Começaram aprendendo a fazer muros, depois cisternas e depois aprenderam a fazer pontes.

Em outra área, observa-se a mesma contaminação desse tipo de raciocínio, impelido por uma inteligência desenvolvida de um modo abnormal para o lado aplicado. Eu vi num documentário sobre a vida de Trajano uma citação de um historiador romano (agora não me recordo o nome) sobre Júlio César. Ele disse assim que a história que ele registrava não era 100% correspondente à fatos. Mas que a intenção era passar a impressão do caráter de Júlio César. Eu entendi na hora, pois é algo que sempre penso. Se fosse contar exatamente o que aconteceu, não poderíamos apreciar o tamanho das virtudes de Júlio César. Pareceria uma batalha comum, talvez. Agora, se exageramos, chegamos mais perto do que ele realmente passou naquele momento, do estresse, do desespero, e da força que foi necessária para sair daquelas enrascadas.

Bem, por um lado os historiadores antigos não eram tão preocupados com os fatos; mas hoje os modernos são obcecados com os fatos, alguns a ponto de que não acreditariam na existência de Júlio César se não houver um descobrimento arqueológico que prove isso. Me lembro de uma vez conversando com esse professor de história que eu tive no ensino médio, o qual fazia parte da ordem franciscana dos leigos e era ferrenho defensor da teologia da libertação e da união da América latina. No dia de Santa Rosa de Lima, padroeira da América latina, acabei conversando com ele sobre ela. E ele me disse que ela era anoréxica. Eu discordei disso e ele continuou: “São Francisco era esquizofrênico, São Domingos de Gusmão botou cannabis sativa na boca quando estava na floresta, São Paulo bateu a cabeça quando caiu do cavalo, etc...”

Esse é um exemplo bom dessa mesma mentalidade nas ciências. A pretensão de explicar qualquer coisa que não se entenda. Não é concebível para os orelhudos que S. Rosa de Lima faça jejuns porque ela ama a Deus.  Ou que São Francisco queira realmente ajudar os pobres, e não fazer uma revolução do proletariado. Afinal, como eles poderiam amar alguém que não veem?

 

 

 

 

 

 



[1] https://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Nivelle

Apenas um Show - O jovem Blue Jay que não era corajoso o suficiente para ser medroso

 

Apenas um Show - O jovem Blue Jay que não era corajoso o suficiente para ser medroso



Eu lembro de ter lido essa história quando estava começando a estudar inglês. Dei uma pesquisada aqui e vi que o nome original é "The Young Blue Jay Who Was Not Brave Enough to Be Afraid", publicada por Clara D. Pierson na sua coleção "Among the Forest People (1898)"

O Bluejay não é um pássaro nativo do Brasil, sendo original da América do Norte, comum no leste e na parte central. São pássaros muito cantantes (tem um monte deles no Red Dead Redemption 2, já até conheço seu canto rsrs) e bem conhecidos por sua inteligência. São pássaros que voam sempre em grupos ou em pares, sendo também conhecidos pelo carinho que têm um pelo outro.

 

Mas aqui vai a história.

Bem, todo mundo que já observou um Blue Jay sabe como eles são corajosos. São o terror da floresta. Eles inspiram as histórias de terror que as mãe pardais contam pros filhinhos pardais, sobre o pássaro-mal monstruoso que vai devorá-lo caso ele se demore muito pelo bosque. O Blue Jay come filhotes de outros pássaros, destrói seus ninhos, arruma briga com gente com o dobro do tamanho, são extremamente territorialistas.

Eles falam bastante, sempre dizendo um ao outro o que fazer. Mas nenhum faz o que lhe foi dito para fazer, então acho que deveriam parar de dar conselho. Vivem na parte mais densa da floresta, onde criam suas famílias de bebês pequenitos e fofuchos, nos seus ninhos feitos com os gravetos mais grossos que podem encontrar. Eles falam muito pouco no verão, e o povo da floresta não sabe quando eles estarão vindo, a não ser que vejam uma frota de asas azuius entre os galhos. Os Blue Jays não devem ficar parados. Eles estão tramando artimanhas e não querem ser pegos.

Os bebês minúsculos crescem rápido e suas bocas estão sempre abertas para mais comida. Pai e Mãe Blue Jay passam todo seu tempo fazendo compras, e eles não se contentam com sementes e amoras. Eles visitam os ninhos dos vizinhos, e então algo muito triste acontece. Quando o Blue Jay vai a um ninho pode haver 4 ovos nele; mas quando eles vão embora, não tem mais nenhum, só pedaços quebrados de casca de ovo. É muito, muito triste, mas essa é outra das coisas que sempre serão assim, e os outros pássaros só podem ficar olhando enquanto os Jays vão embora.

Havia uma vez um jovem Blue Jay na floresta que era maior que seus irmãos e irmãs, e sem querer os empurrava para fora do ninho. Quando o pai chegava com um pouco de comida, ele se esticava e dava sempre a primeira mordida, porque era o maior e mais forte. Às vezes a primeira mordida era tão grande que não restava nada para os outros. Ele era um sujeito muito ávido.

O mesmo Blue Jay costumava se gabar do que iria fazer quando saísse do ninho, e sua mãe lhe contava que ele iria se meter em problemas caso não fosse cuidadoso. Ela dizia que até mesmo os Blue Jay tinham que tomar cuidado.

"Huh!" dizia o jovem Blue Jay; "Quem tem medo?"

"Agora você banca o valentão," dizia a Mãe, "as pessoas que são realmente corajosas são sempre dispostas a serem cuidadosas."

Mas o jovem Blue Jay só empurrava mais seus irmãos e irmãs para a beirada do ninho, e pensava, na sua pequena cabeça peluda, que quando tivesse a chance ele mostraria a eles o que era coragem.

Depois de um tempo essa chance chegou. Todos os pássaros pequenos haviam aprendido a pular de galho em galho e a saltitar bem rápido andando no chão. Uma tarde eles foram para a parte da floresta em que o chão era úmido e tudo era esquisito. O pai e a mãe advertiram suas crianças ficarem sempre próximas a eles, que assim estariam protegidos; mas o tolo jovem Blue Jay queria uma chance de ir sozinho; então ele se escondeu atrás de uma árvore até que os outros sumissem da visão, e a partir dali emendou em outro caminho. Foi bem divertido por um tempo, e quando os outros pássaros o olhavam ele estufava o peito acreditando que isso iria assustá-los.

O jovem Blue Jay tinha acabado de pensar nisso quando ele viu algo longo e brilhante deitado no caminho à frente. Ele se lembrou do que seu pai havia dito sobre cobras, e sobre esse tipo que tinha chocalhos em sua cauda. Ele se perguntou se essa tinha um chocalho, e se decidiu a ir ver. "Sou um Blue Jay," disse a si mesmo, "e nunca tive medo de nada."

A cobra-chocalho, que tinha mesmo um chocalho, levantou sua cabeça pra olhar o pássaro. O jovem Blue Jay viu que seus olhos estavam bem brilhosos. Ele olhou bem dentro deles, e pôde ver pequenas imagens de si mesmo no seu brilho. Ele ficou parado para olhar, e a cobra se achegou. Daí o Blue Jay tentou ver sua cauda, mas não conseguia tirar os olhos dos olhos da cobra, mesmo que estivesse tentando muito.

A cobra-chocalho agora envolvia seu corpo, achatava sua cabeça peluda, e mostrava seus dentes, o tempo todo sua língua bifurcada entrando e saindo da boca. O Blue Jay tentou sair, e percebeu que não conseguia. Tudo que podia fazer era ficar ali e encarar aqueles olhos brilhantes, e escutar a canção que a cobra-chocalho começara a cantar:

"Através da grama e samambaias,

Com muitas voltas,

Meu corpo brilhante eu desenho.

Na sombra da floresta

Minha casa está feita,

Pois esta é a Lei Florestal.

 

"Quem tenta

Para olhar nos meus olhos

Aproxima-se da minha mandíbula envenenada;

E pássaros bravos

Eu encanto e seguro,

Pois esta é a Lei Florestal. "

 

A cobra-chocalho chegava cada vez mais perto, e o jovem Blue Jay estava tremendo de medo, quando de repente chega um avoaçar de asas e sua mãe e seu pai chegam descendo e gritando em volta da cobra-chocalho, chamando todos os outros Jays, e fazendo a cobra desistir do pequeno pássaro que estava para comer.

Depois que o medo passou, o jovem Blue Jay começou a reclamar que não tinha visto o chocalho da cobra. Então sua mãe lhe deu uma surra e seu pai disse que ele merecia umas bicadas violentas pela sua tolice.

O jovem Blue Jay se arrependeu da confusão que havia causado. E sua mãe lhe disse "Um pássaro realmente bravo ousa ter medo de algumas coisas" e, "se você chegar perto o bastante para ver a cauda do perigo, você pode ser atingido pela sua cabeça"

 

E essa foi a história.

Pra quem não conhece o desenho, "Apenas um Show" é sobre a vida de dois amigos que trabalham num parque ambiental no centro da cidade. Mordecai é um Blue Jay e seu melhor amigo Rigby é um guaxinim.

Bem, Mordecai adora socar Rigby na cara, ter sempre a manete 1 no vídeo-game e dorme na melhor cama. Ele é mais esperto que Rigby, e muito mais maduro também. Isso no início já foi quase causa para se separarem, pois tem horas que Mordecai não aguenta a convivência com o guaxinim egoísta e imaturo que é o Rigby. Só que para mim os dois são como Goku e Kulillin. Um melhora o outro. Goku é puro de coração, mas é inocente de mais, não tem sagacidade. E Kulillin é invejoso, quer treinar para arrumar namoradas. Tem uma situação que o Mestre Kame arremesa uma pedra no meio da floresta e fala para acharem essa pedra. Quem achar antes de anoitecer pode jantar. Se nenhum dos dois acharem, os dois ficam sem janta. Goku consegue encontrar a pedra graças à seu faro canino. Kulillin fica na espreita e rouba a pedra de Goku para entregar ao Mestre Kame. Foi a primeira vez que Goku realmente se ferrou por causa da malícia de alguém.

E, sabe, Rigby para mim é um personagem extremamente tóxico. Não é só infantil e ingrato, mas ele é mesquinho, sempre pronto para sacrificar qualquer um e qualquer coisa pelo seu bem-estar. Além de não olhar para o bem dos outros, só para o seu próprio bem. Mas são amigos. E uma coisa que me surpreende é como o Mordecai lida com isso. Isso não é só porque é um desenho, e esse tipo de coisa pode ser simplesmente ignorado e o Mordecai possa ter paciência infinita com o Rigby. Mas eu conheço isso na vida real, bem de perto e já vi pessoas que convivem com outras muito inferiores a elas (vamos dizer assim, rasgando o verbo mesmo) e acabam sendo amigas de longa data. Isso acontece muitas vezes por falta de opção. Porém há também um efeito purificador nesse tipo de amizade. Pra ambos os lados. Mordecai é obrigado a perder sua soberba de querer estar sempre perto dos mais picas de todos, de querer dominar tudo, ter a companhia dos melhores e mais bonitos. Ele tem que ficar com o Rigby. E ele não abandona nunca seu amigo. Ele tem que aprender a ser calmo e paciente (coisa que é exatamente o oposto do que os Blue Jay comedores de ovos são na natureza). E Goku tem que aprender a maldade. Kulillin, a bondade e a pureza de coração. E o Rigby... Bem, o Rigby nunca aprende nada.