Existem dois tipos de inteligência: a inteligência aplicada e a inteligência geral.
Pode-se pensar nessas
duas com uma metáfora. Imaginem um carro Mercedes. A inteligência aplicada
é a responsável por produzir a parte mecânica do carro. A inteligência geral
é o vigor criativo que nós temos. É a geral que dá ao carro suas
belas curvas, que vai pintá-lo de rosa, colocar um neon em baixo, botar luzes
piscantes nas rodas, e tudo que nós gostamos nos nossos carros.
A geral é a inteligência voltada para a
criatividade, a sabedoria, a arte, apreensão do transcendente, inteligência
emocional, busca pelas virtudes, compaixão, poesia, etc. Porém não adianta um
pintor com muita imaginação e sem nenhuma técnica. Por isso a inteligência aplicada também é importante.
No entanto, a aplicada vem recebendo doses injustas de atenção na nossa
modernidade, coisa que jamais se observaria em povos antigos (ou até há pouco
tempo atrás.
Na antiguidade existia
uma divisão sobre os dois tipos de generais que você encontraria no campo de
batalha: o general instintivo e o general estrategista. O general
instintivo é aquele que costumava acompanhar os seus homens no meio da peleja. Geralmente
eram fortes e exímios combatentes. Esse general se aproveita do páthos dos
soldados. Ele com sua força e coragem impele seus soldados para frente, ductus
exemplo, liderar pelo exemplo, diziam os romanos. Houve um caso, no
primeiro enfrentamento entre os romanos e os gregos em que o rei e general
Pirro (que cunhou o termo ‘vitória Pírrica’ justamente por causa dessa batalha)
teve que se retirar no meio da batalha porque as coisas estavam esquentando demais
(não esperava um exército tão bem preparado do lado dos romanos). Para não
abalar a moral dos soldados – ele não queria parecer que estava batendo em
retirada -, ele foi até seu melhor amigo e conselheiro Mégacles e lhe entregou
a armadura, de modo que Mégacles se vestisse de rei e voltasse para a batalha
em nome de Pirro. Acontece que um soldado romano desconhecido lhe enfiou a
espada no peito e matou o conselheiro. Depois, vendo que se tratava do rei dos
gregos (ou assim pensaram), ele empalou o sujeito e começou a balança-lo na
estaca, exibindo a todos que o rei grego estava morto. Os gregos ficaram
extremamente desmoralizados por causa disso, generais e outros nobres amigos de
Pirro avançaram loucamente e morreram nas mãos dos romanos. Até que finalmente
o rei verdadeiro retornou ao campo de batalha e acalmou os ânimos dos seus
soldados. Mas até que isso fosse, já tinham morrido muitos dos seus nobres.
Apesar da vitória grega nessa batalha (eles
tinham elefantes e os romanos nunca tinham visto essas bestas demoníacas), as
perdas do exército grego foram tremendas. “Se saio vencedor em mais uma batalha
contra os romanos, estou completamente arruinado”.
Pirro era um caso de
um Rei e general estrategista, mas que também sabia combater (ou nem tanto), um
traço comum na cultura bélica grega. Porém antes dele, no século IV antes de
Cristo temos um exemplo formidável de um Rei general que combinava as duas
qualidades. Era Alexandre, o Grande. Alexandre fora tutelado por ninguém menos
que Aristóteles. Treinou luta grega, decorou as epopeias de Homero, aprendeu a
filosofar, aprendeu sobre política, teve toda educação que um nobre teria direito
de receber. E no campo da batalha tinha, como diziam, a força de um leão e a
coragem de uma mãe ursa, lutando como se não tivesse nada a perder, apostando
tudo. Suas cargas eram decisivas na batalha. Os homens acreditavam estar
cavalgando ao lado de um próprio deus ou semideus alado quando Alexandre
avançava. Devia ser algo de outro mundo, realmente. Não é à toa que ele teve
dos exércitos mais fiéis que eu já vi. Homens que marcharam literalmente até a
Índia com ele.
Agora, vou dar um
exemplo do que é o oposto disso.
Qualquer um que estuda
primeira e segunda guerra mundial sabe da falta de habilidade dos generais
franceses em bolar estratégias. Seus planos mirabolantes (terminar toda a
guerra em 6 meses[1]) e
pouco práticos levaram a casualidades enormes para o lado dos franceses. Esse é
um exemplo de quando a inteligência geral foi substituída pela pura
inteligência aplicada. O ambiente militar francês, dominado pelo
pensamento positivista, tinha suas estratégias baseadas em raciocínios lógico-matemáticos.
Se eu fizer isso, logicamente acontecerá aquilo. Qualquer general
sabe que não funciona assim. Por isso que Júlio César e Alexandre, o Grande
foram tão bem sucedidos. Não faziam tantos planos antes, só o básico. O resto
faziam de acordo com o correr da batalha.
Outra coisa, homens não
se motivam com pensamentos puramente racionais. E muito menos, por essas
estratégias serem tão racionais e calculadas, quer dizer que fiquem mais fáceis
de ser seguidas. O exército romano não começou construindo pontes. A primeira
lição foi aceitar a derrota, se preparar para ela, e depois a disciplina para
alcançar a vitória. Começaram aprendendo a fazer muros, depois cisternas e
depois aprenderam a fazer pontes.
Em outra área,
observa-se a mesma contaminação desse tipo de raciocínio, impelido por uma inteligência
desenvolvida de um modo abnormal para o lado aplicado. Eu vi num
documentário sobre a vida de Trajano uma citação de um historiador romano
(agora não me recordo o nome) sobre Júlio César. Ele disse assim que a história
que ele registrava não era 100% correspondente à fatos. Mas que a intenção era passar
a impressão do caráter de Júlio César. Eu entendi na hora, pois é algo
que sempre penso. Se fosse contar exatamente o que aconteceu, não poderíamos
apreciar o tamanho das virtudes de Júlio César. Pareceria uma batalha comum,
talvez. Agora, se exageramos, chegamos mais perto do que ele realmente passou
naquele momento, do estresse, do desespero, e da força que foi necessária para
sair daquelas enrascadas.
Bem, por um lado os
historiadores antigos não eram tão preocupados com os fatos; mas hoje os
modernos são obcecados com os fatos, alguns a ponto de que não acreditariam na
existência de Júlio César se não houver um descobrimento arqueológico que prove
isso. Me lembro de uma vez conversando com esse professor de história que eu
tive no ensino médio, o qual fazia parte da ordem franciscana dos leigos e era
ferrenho defensor da teologia da libertação e da união da América latina. No
dia de Santa Rosa de Lima, padroeira da América latina, acabei conversando com
ele sobre ela. E ele me disse que ela era anoréxica. Eu discordei disso e ele continuou:
“São Francisco era esquizofrênico, São Domingos de Gusmão botou cannabis sativa
na boca quando estava na floresta, São Paulo bateu a cabeça quando caiu do
cavalo, etc...”
Esse é um exemplo bom
dessa mesma mentalidade nas ciências. A pretensão de explicar qualquer coisa
que não se entenda. Não é concebível para os orelhudos que S. Rosa de Lima faça
jejuns porque ela ama a Deus. Ou que São
Francisco queira realmente ajudar os pobres, e não fazer uma revolução do
proletariado. Afinal, como eles poderiam amar alguém que não veem?
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