Acho que eu sempre fui de idealizar as coisas que eu resolvia fazer. Esse foi o caso também com o Catolicismo, quando realizei uma "auto-conversão" na minha juventude. Tinha esperanças de reencontrar um sublime perdido, uma sociedade de amor fraterno, ou simplesmente um grupo onde eu poderia me encaixar e conversar com pessoas que partilhassem ideias semelhantes.
Durante anos participei dos mais variados grupos católicos, desde os da RCC aos Neo-trads, Sociedade Pio X e Arautos do Evangelho. Como homem, eu ficava surpreso quando me sentia sozinho no meu sufocamento, principalmente ao observar como outros homens pareciam não compartilhar da mesma sensação de asfixia. Minha natureza mais livre revoltava-se em ter que constringir-se em movimentos tão rígidos que arriscavam operar uma auto-castração. Pois os instintos naturais eram vistos como impuros e vis. Até por pensamento se poderia pecar; portanto era necessário vigiar nisso também.
Para resumir a ópera, eu estive ligado de perto, durante um tempo, a alguns grupos religiosos católicos e aqui nesse post desejo expressar algumas impressões que obtive.
A Apologética Católica tende a se fundamentar bastante na atração pelo paradoxal, como quando afirmam que "os últimos serão os primeiros", "aqueles que se fazem pequenos são feitos grandes", "Cristo teve que morrer para salvar a humanidade", "o homem deve ser escravo de Cristo para ser livre", etc, etc, etc... Sob uma ótica limitantemente dicotômica tais conceitos se tornam facilmente compreensíveis e, diante de uma cultura um tanto focada em satisfazer prazeres mais imediatos, os mandamentos católicos soam como o caminho a ser seguido. Isso atraiu muitos jovens para movimentos como a RCC e aos ritos tradicionais da missa tridentina.
O problema é que a experiência cristã tornou-se nos dias atuais tão inorgânica quanto Ácido Cianídrico. Durante o que Sir John Glubb chama de "Age of Intelectuallism", é natural que haja uma guerra acirrada por narrativas. Quando pessoas têm medo de encarar a vida sem uma narrativa coerente pronta, acabam rapidamente recorrendo a narrativas já pré-fabricadas e testadas, ao invés de procurarem confeccionar a sua própria. O erro inicia quando inocentemente acham que a narrativa católica é absoluta, e não conseguem enxergá-la pelo que ela realmente é: apenas mais uma narrativa, um filtro pelo qual se enxerga o mundo. Aliás, um filtro bastante condicionado a tempos de estabilidade social e onde sacerdotes possuam controle da narrativa. Numa "Age of Intellectualism" exacerbada pelo fluxo de informações da internet, o fato de alguns jovens estarem se "tornando católicos" é um testamento magnífico à capacidade humana de rejeitar a realidade, hipnotizar-se e aceitar uma narrativa em prol da validação social (isso dentro dos pequenos grupelhos católicos do qual ele participa) e da paz de consciência.
Paulo de Tarso, que estudara nas mesmas escolas de simbolismo gregas que Otaviano Augusto (sobrinho de Júlio César e fundador do Império Romano), com seu instinto sacerdotal de judeu, foi hábil em confeccionar uma narrativa que tivesse apelo para com os marginalizados cada vez mais numerosos das bordas e fronteiras do Império Romano. A moralidade cristã é aquela da pessoa que ganha a luta com uma rasteira. Assim como em Sócrates e Platão, a chandala fica feliz em saber que, se não tiver vencido algo ou alguém no mundo físico e real, ao menos no mundo metafísico terá uma vitória final - nisso está o verdadeiro e primitivo substrato de boa parte do cristianismo -. Para a confecção dessa narrativa, foram utilizados elementos fortemente simbólicos, tirados do judaísmo e de outras religiões. Claro que Paulo de Tarso não fez tudo sozinho, uma vez que o Cristianismo só foi realmente adquirir um arcabouço intelectual sério com S. Agostinho e mais posteriormente S. Tomás de Aquino e outros Doutores da Igreja, alguns, como no caso do boi mudo, tendo como motivação combater a retórica islâmica que vinha evoluindo muito mais que a cristã.
Folie à deux seria uma explicação psicológica para o delírio coletivo que leva pessoas a acreditarem em resquícios de conceitos medievais ultrapassados que obviamente só servem para manipulação, por mais que no começo pudessem sustentar algum significado transcendente, como por exemplo: santidade do Papa em pronunciamentos sobre o dogma; sacramentos; mãos santas do sacerdote; absolvição dos pecados; revelações; milagres; etc, etc, etc... Técnicas óbvias de controle social e monopolização da narrativa. O Catolicismo é uma franquia espiritual, assim como MacDonalds é uma franquia de comida. Sim, você poderia se alimentar somente de MacDonalds, mas faltariam nutrientes no seu corpo e o melhor para a saúde seria ter uma alimentação variada. O Catolicismo, assim como outras religiões, visam monopolizar nossa dieta espiritual.
É perigoso prostrar-se em um estado humilhado e submisso numa sociedade que é violenta contra os homens, querendo justamente destruir seu ego. Para completar, na visão cristã moderna o homem é visto como um burro de carga que deve tomar sobre si o peso de sustentar o lar. Muitos colegas meus foram manipulados a casar-se e ter filhos. Enquanto as pessoas do passado enxergavam casamento e filhos sob um prisma pragmático, hoje os cristãos fantasiam essas instituições, enxergando-as como um plano de Deus, ou então algo espiritualizado e metafísico, ou então um complementarianismo necessário entre o masculino e o feminino - mais uma vez, apenas narrativas. O problema é quando a narrativa lhe atrapalha a viver a realidade - aí quer dizer que ela não presta mais. Casamento era um investimento e filhos eram uma aposentadoria. Desde pelo menos o século 19 que o casamento não faz mais sentido. Sem o instinto de posse, casar-se jamais valerá a pena para o homem. Você só cuida bem daquilo que é seu. Sem isso, a tendência é o homem ser escravizado dentro do casamento.
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Após todo essa Diss Track, gostaria de ressaltar que não sou contra o catolicismo. Acredito que o catolicismo floresça em sociedades coletivistas que, devido a situações de bonança ou estabilidade, possam se dar ao luxo de favorecerem, seja emocionalmente, espiritualmente ou materialmente às pessoas que praticam o "amor ao próximo". Claro, existe autêntica empatia, mas tomar um sentimento como um dever absoluto é doentio. Observa-se então que os princípios cristãos desmoronam em sociedades como a brasileira atual. Porém, tais princípios, sempre incipientes, servem muitas vezes como entrave para o desenvolvimento das pessoas, com regras morais auto-contraditórias e que levam mais ao sofrimento do que à satisfação.
Creio também que certas partes do cristianismo tenham sido aparelhadas a fim de combater o fenômeno da "décadance", sobretudo nas classes mais altas que lidarão com o que Nietzsche chama de "anarquia dos sentidos". Nesse ponto, o nobre hedonista é lembrado de sua fraqueza e também da impermanência das coisas. A doutrina o instrui à moderação e/ou restrição absoluta; a libido desgovernada é domada no celibato ou na monogamia bem reforçada socialmente. A ordem é a palavra chave no cristianismo.
Quanto a Jesus, creio que tenha sido um filósofo e líder que combateu o "résentiment" e a injustiça. Infelizmente, sua mensagem foi bastante adulterada com fins propagandísticos. O evangelho trocava de molde conforme o povo, degradado ou sadio, pobre ou patrício, com os quais ia entrando em contato. Versículos super obscuros, e que dizem muito sem dizer nada. Como um médico que recomenda o paciente com intestino solto a decorar o hino do Brasil ou cortar as unhas como remédio. No fim das contas, é mais fácil dominar uma ovelhinha adoecida. Sempre desconfio de grandes instituições internacionais e opulentas. Acha que adquiriram esse poder fazendo o bem e dizendo a verdade? Geralmente, como em empresas do porte do MacDonalds, essas são boas em predar no que há de mais frágil no ser humano.
Apesar de tudo, eu acredito na bondade singular e indivual do ser humano. Nas pessoas que não levantam bandeiras quando ajudam o outro, mas o fazem porque o vêem como semelhante.
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