Análise e reflexões sobre os filmes Casino e Goodfellas, de Martin Scorsese

Eu quero aqui trazer algumas reflexões minhas sobre esses dois filmaços do Scorsese: Goodfellas e Casino Na minha opinião esses são clássi...

Posers católicos

 Acho que eu sempre fui de idealizar as coisas que eu resolvia fazer. Esse foi o caso também com o Catolicismo, quando realizei uma "auto-conversão" na minha juventude. Tinha esperanças de reencontrar um sublime perdido, uma sociedade de amor fraterno, ou simplesmente um grupo onde eu poderia me encaixar e conversar com pessoas que partilhassem ideias semelhantes. 

Durante anos participei dos mais variados grupos católicos, desde os da RCC aos Neo-trads, Sociedade Pio X e Arautos do Evangelho. Como homem, eu ficava surpreso quando me sentia sozinho no meu sufocamento, principalmente ao observar como outros homens pareciam não compartilhar da mesma sensação de asfixia. Minha natureza mais livre revoltava-se em ter que constringir-se em movimentos tão rígidos que arriscavam operar uma auto-castração. Pois os instintos naturais eram vistos como impuros e vis. Até por pensamento se poderia pecar; portanto era necessário vigiar nisso também.

Para resumir a ópera, eu estive ligado de perto, durante um tempo, a alguns grupos religiosos católicos e aqui nesse post desejo expressar algumas impressões que obtive. 

A Apologética Católica tende a se fundamentar bastante na atração pelo paradoxal, como quando afirmam que "os últimos serão os primeiros", "aqueles que se fazem pequenos são feitos grandes", "Cristo teve que morrer para salvar a humanidade", "o homem deve ser escravo de Cristo para ser livre", etc, etc, etc... Sob uma ótica limitantemente dicotômica tais conceitos se tornam facilmente compreensíveis e, diante de uma cultura um tanto focada em satisfazer prazeres mais imediatos, os mandamentos católicos soam como o caminho a ser seguido. Isso atraiu muitos jovens para movimentos como a RCC e aos ritos tradicionais da missa tridentina. 

O problema é que a experiência cristã tornou-se nos dias atuais tão inorgânica quanto Ácido Cianídrico. Durante o que Sir John Glubb chama de "Age of Intelectuallism", é natural que haja uma guerra acirrada por narrativas. Quando pessoas têm medo de encarar a vida sem uma narrativa coerente pronta, acabam rapidamente recorrendo a narrativas já pré-fabricadas e testadas, ao invés de procurarem confeccionar a sua própria. O erro inicia quando inocentemente acham que a narrativa católica é absoluta, e não conseguem enxergá-la pelo que ela realmente é: apenas mais uma narrativa, um filtro pelo qual se enxerga o mundo. Aliás, um filtro bastante condicionado a tempos de estabilidade social e onde sacerdotes possuam controle da narrativa. Numa "Age of Intellectualism" exacerbada pelo fluxo de informações da internet, o fato de alguns jovens estarem se "tornando católicos" é um testamento magnífico à capacidade humana de rejeitar a realidade, hipnotizar-se e aceitar uma narrativa em prol da validação social (isso dentro dos pequenos grupelhos católicos do qual ele participa) e da paz de consciência.

Paulo de Tarso, que estudara nas mesmas escolas de simbolismo gregas que Otaviano Augusto (sobrinho de Júlio César e fundador do Império Romano), com seu instinto sacerdotal de judeu, foi hábil em confeccionar uma narrativa que tivesse apelo para com os marginalizados cada vez mais numerosos das bordas e fronteiras do Império Romano. A moralidade cristã é aquela da pessoa que ganha a luta com uma rasteira. Assim como em Sócrates e Platão, a chandala fica feliz em saber que, se não tiver vencido algo ou alguém no mundo físico e real, ao menos no mundo metafísico terá uma vitória final - nisso está o verdadeiro e primitivo substrato de boa parte do cristianismo -. Para a confecção dessa narrativa, foram utilizados elementos fortemente simbólicos, tirados do judaísmo e de outras religiões. Claro que Paulo de Tarso não fez tudo sozinho, uma vez que o Cristianismo só foi realmente adquirir um arcabouço intelectual sério com S. Agostinho e mais posteriormente S. Tomás de Aquino e outros Doutores da Igreja, alguns, como no caso do boi mudo, tendo como motivação combater a retórica islâmica que vinha evoluindo muito mais que a cristã. 

Folie à deux seria uma explicação psicológica para o delírio coletivo que leva pessoas a acreditarem em resquícios de conceitos medievais ultrapassados que obviamente só servem para manipulação, por mais que no começo pudessem sustentar algum significado transcendente, como por exemplo: santidade do Papa em pronunciamentos sobre o dogma; sacramentos; mãos santas do sacerdote; absolvição dos pecados; revelações; milagres; etc, etc, etc... Técnicas óbvias de controle social e monopolização da narrativa. O Catolicismo é uma franquia espiritual, assim como MacDonalds é uma franquia de comida. Sim, você poderia se alimentar somente de MacDonalds, mas faltariam nutrientes no seu corpo e o melhor para a saúde seria ter uma alimentação variada. O Catolicismo, assim como outras religiões, visam monopolizar nossa dieta espiritual.

É perigoso prostrar-se em um estado humilhado e submisso numa sociedade que é violenta contra os homens, querendo justamente destruir seu ego. Para completar, na visão cristã moderna o homem é visto como um burro de carga que deve tomar sobre si o peso de sustentar o lar. Muitos colegas meus foram manipulados a casar-se e ter filhos. Enquanto as pessoas do passado enxergavam casamento e filhos sob um prisma pragmático, hoje os cristãos fantasiam essas instituições, enxergando-as como um plano de Deus, ou então algo espiritualizado e metafísico, ou então um complementarianismo necessário entre o masculino e o feminino - mais uma vez, apenas narrativas. O problema é quando a narrativa lhe atrapalha a viver a realidade - aí quer dizer que ela não presta mais. Casamento era um investimento e filhos eram uma aposentadoria. Desde pelo menos o século 19 que o casamento não faz mais sentido. Sem o instinto de posse, casar-se jamais valerá a pena para o homem. Você só cuida bem daquilo que é seu. Sem isso, a tendência é o homem ser escravizado dentro do casamento.

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Após todo essa Diss Track, gostaria de ressaltar que não sou contra o catolicismo. Acredito que o catolicismo floresça em sociedades coletivistas que, devido a situações de bonança ou estabilidade, possam se dar ao luxo de favorecerem, seja emocionalmente, espiritualmente ou materialmente às pessoas que praticam o "amor ao próximo". Claro, existe autêntica empatia, mas tomar um sentimento como um dever absoluto é doentio. Observa-se então que os princípios cristãos desmoronam em sociedades como a brasileira atual. Porém, tais princípios, sempre incipientes, servem muitas vezes como entrave para o desenvolvimento das pessoas, com regras morais auto-contraditórias e que levam mais ao sofrimento do que à satisfação.

Creio também que certas partes do cristianismo tenham sido aparelhadas a fim de combater o fenômeno da "décadance", sobretudo nas classes mais altas que lidarão com  o que Nietzsche chama de "anarquia dos sentidos". Nesse ponto, o nobre hedonista é lembrado de sua fraqueza e também da impermanência das coisas. A doutrina o instrui à moderação e/ou restrição absoluta; a libido desgovernada é domada no celibato ou na monogamia bem reforçada socialmente. A ordem é a palavra chave no cristianismo.

Quanto a Jesus, creio que tenha sido um filósofo e líder que combateu o "résentiment" e a injustiça. Infelizmente, sua mensagem foi bastante adulterada com fins propagandísticos. O evangelho trocava de molde conforme o povo, degradado ou sadio, pobre ou patrício, com os quais ia entrando em contato. Versículos super obscuros, e que dizem muito sem dizer nada. Como um médico que recomenda o paciente com intestino solto a decorar o hino do Brasil ou cortar as unhas como remédio. No fim das contas, é mais fácil dominar uma ovelhinha adoecida. Sempre desconfio de grandes instituições internacionais e opulentas. Acha que adquiriram esse poder fazendo o bem e dizendo a verdade? Geralmente, como em empresas do porte do MacDonalds, essas são boas em predar no que há de mais frágil no ser humano.

Apesar de tudo, eu acredito na bondade singular e indivual do ser humano. Nas pessoas que não levantam bandeiras quando ajudam o outro, mas o fazem porque o vêem como semelhante.








Análise e reflexões sobre os filmes Casino e Goodfellas, de Martin Scorsese

Eu quero aqui trazer algumas reflexões minhas sobre esses dois filmaços do Scorsese: Goodfellas e Casino

Na minha opinião esses são clássicos atemporais e esses dois filmes têm aspectos em comum um com o outro e que, para mim, mostram também um pouco do próprio caráter do diretor, Martin Scorsese.

Goodfellas é um filme sobre um gângster. Baseado em uma história real, o filme retrata a realidade de membros da máfia durante os anos 60 nos Estados Unidos da América. Eu acho muito bom esses tropos de três companheiros, como no filme Cidade de Deus com o “trio ternura”. Eles são Tommy, Henry e Jimmy.

Todos ali são baseados em pessoas reais e os eventos que se desdobram também.

A minha reflexão vai se basear muito nesses personagens.

O Henry desde pequeno nunca viu outro caminho que não fosse a máfia. Antes de sua adolescência terminar ele já sabia muito bem o que que queria com sua vida; e ele não entra nessa vida com medo, receio ou com qualquer escrúpulo, a máfia vem para ele tão naturalmente como a puberdade. Ele sobe na hierarquia conforme vai ganhando a confiança dos mais velhos e a sua responsabilidade e poder, obviamente, crescem juntos. Ele vive uma vida relativamente sossegada e consegue manter seus esquemas e seus roubos sem ser incomodado pela polícia, que é facilmente apaziguada através de suborno.

Depois de muita insistência da parte de seu amigo Tommy, o Henry acaba concordando sair em um encontro duplo com Tommy só para não desagradar o amigo, porém na segunda vez o Henry resolve que tinha algo melhor para fazer e não aparece no jantar e o “date” dele, que é a Karen, fica lá sozinha segurando vela pro Tommy e a outra judia que estava com ele. A Karen fica furiosa e vai até o restaurante italiano onde ficavam os mafiosos e ela confronta o Henry diante ali de vários mafiosos, e nesse momento ele enxerga nela uma mulher selvagem, com paixão, com fogo, e isso o atrai.

Com segurança eu posso dizer esses personagens do Scorsese são bem movidos pelo que Nietzsche chamaria “vontade de potência”. Eu não me atreveria dizer isso se o Platinho já não tivesse feito essa análise com o Lobo de Wallstreet. Na realidade deles, observa-se que depois de um tempo o que começa a valer mesmo não é o dinheiro, e sim o poder. O poder de se livrar da polícia; o poder que comanda respeito dos outros; o poder de influência. Quando Henry vê Karen, ele vê uma pessoa com poder, e não apenas isso, ele vê também um desafio. Nietzsche que diz que o homem gosta de um jogo, e não existe jogo mais perigoso que a mulher. Portanto, para Henry aquele seria mais um jogo.

Pode aí observar como as apostas e os jogos são onipresentes na vida dessas pessoas. O momento que eles se sentam ali para jogar pôker, esse é o momento em que eles transformam a própria realidade em síntese, pois os jogos de azar resumem bem simbolicamente a vida deles; um símbolo do que eles perseguem diariamente, como se ali aquela mesa de pôker fosse o altar onde a hóstia seria consagrada na missa

A busca que eles têm por mais e mais daquilo vai além de ininterrupta, ela é uma busca religiosa.

Voltando aqui ao Henry, pode observar como as mulheres com quem ele se envolve são desafios que escalaram de nível. As goomas, que são as amantes, já são um elemento comum na vida dele, porém ele resolve dificultar as coisas quando ele experimenta brincar de casinha com uma das amantes, dá um apartamento maneiro para ela, e sem receios começa a passar mais tempo com a amante do que com a esposa. Depois, ele se atrai por uma das amigas da amante, a que mais tinha aparência de cheiradora ali. E daí ele termina com a amante anterior e resolve ficar com a viciada em drogas.

O filme tem essa redpill sobre a natureza feminina. No caso da Karen, quando o Henry pede para ela esconder a arma que estava coberta de sangue, ela admite que “that turned me on”. A Karen é mais uma que será regida pela vontade de potência, sem lastro moral. Pois a liberdade dela vem através da entrega à sua natureza feminina profana, que a faz escolher não o bom esposo judeu e certinho, e sim o badboy gângster italiano. Se formos aplicar a vontade de potência do Nietzsche, Karen e Henry poderiam ser considerados, nesse sentido, aparentemente mais livres que a maioria das pessoas, pois deixam o seu lado animal à solta.

O Henry poderia continuar tendo uma vida extremamente sossegada. Porém, mesmo sendo proibido por Paulie, ele resolve vender uma droga que ele não deveria vender.

Tem algum filósofo que diz que o homem é uma máquina de desejos insaciável. O Henry não consegue deter, aliás, nem tenta, deter seus desejos, e ele segue em frente obliterando tudo, até a si mesmo.

Jimmy e Tommy vão na mesma direção, deixando um rastro talvez até mais destrutivo.

O Tommy simplesmente mata todo mundo que vê pela frente, e já nem tenta controlar seu humor.

Jimmy chega a conclusão que em vez de pagar as pessoas o dinheiro que ele deve ele pode simplesmente matá-las e ficar com o dinheiro kkk.

Uma coisa que os filmes do Scorsese definitivamente não fazem é atribuir julgamentos morais em cima dos personagens, talvez por isso essa cena no júri em que o Henry quebra a quarta parede e meio que chama a nós, a audiência, para julgar o caso dele. Uma coisa que particularmente esse filme Goodfellas vai fazer, é você ponderar se houve alguma redenção para o Henry, pois no final da vida ele parece na verdade bastante insatisfeito com a segunda chance que ele teve. E essa para mim é uma das mensagens mais fortes de goodfellas, que é aquela coisa de que, sim, você pode acreditar que foi perdoado por ter levado a vida que levou, mas a vida que você levou não te perdoa tão facilmente. As marcas, as cicatrizes da vida no glamour da máfia se veem claras, não só no rosto cheirado de coca do Henry, mas na infelicidade dele com uma vida normal.


Agora para refletir um pouco sobre o filme Casino, eu queria comentar que o filme inicia com a música da “Paixão segundo São Mateus” de Johann Sebastian Bach e que essa história, a história que a música está contando, que é a paixão de Cristo, serve como um cenário de segundo plano dos eventos que vão desenrolar no filme. Isso na minha visão, é claro, eu não estou pegando essa opinião de nenhum crítico.

Pois bem, dizer que os filmes do Scorsese constantemente fazem uso do Sagrado e do Profano não seria nada de novo. E mesmo assim eu quero apontar para a presença de alguns elementos religiosos e profanos que ajudarão a trazer um modo diferente de ver o filme. Quando o Ace “Rothstein” chega em Las Vegas, uma coisa que ele comenta é que Las Vegas faz para ele o que Lourdes faz para deficientes e cadeirantes. Aqui ele se refere aos milagres de Nossa Senhora de Lourdes, na França. Só que observem o seguinte: enquanto Lourdes cura as enfermidades FÍSICAS das pessoas, Las Vegas cura as enfermidades ESPIRITUAIS do Ace Rothstein. Ali ele deixa para trás o passado, as dívidas, as preocupações, as pessoas que ele passou a perna. Las Vegas cura isso. Para Ace, Las Vegas é o ápice de sua carreira, mas a cidade deve ser respeitada e há bastante trabalho para ser feito. Já o seu amigo Nicky vê Las Vegas com outros olhos; ele a vê como intocada, esperando alguém para vir e dominá-la.

Nicky é o defensor de Ace Rothstein, é ele quem age nas ruas para preservar o mundo etéreo do Casino Nicky é o pontífice – mas é também o arquétipo perfeito do gângster: se ele quer algo, ele toma; se ele não gosta de algo, ele destrói, e isso passa cada vez mais a ser o mantra da sua vida. Quando ele vê que Ace Rothstein está abandonando essa forma de agir ele pergunta ao Ace “don’t you have balls?” “Você não tem culhões?”. Ali nessa cena, Ace Rothstein é o homem que, como Nietzsche diria, estaria abraçando a moralidade dos fracos, se escondendo do perigo e enquanto isso dedicando-se a ajudar a sua pecadora,– que é a ginger.  E Nicky é a besta, é o animal inconsequente que vive sob as próprias regras. Assim como em Mean Streets, também do Scorsese, eu acho que seria seguro afirmar que Ace também sofre do savior complex, o complexo de salvador. No entanto, sem precisar examinar muito à fundo, notam-se em alguns personagens do Scorsese qualidades bastante centradas na figura de Jesus Cristo, como no caso do Henry em Goodfellas que sempre age como intercessor, tentando evitar violência desnecessária; do trio de gângsters ele é o mais sensato e também o único que consegue ter compaixão. Ace Rothstein, porém, não tem a disposição de absolver nem mesmo o filho do Senador, aquele rapaz meio lerdo que trabalhava do Casino, e indo contra seus próprios interesses, ele expulsa o rapaz do seu reino, e não cede nem mesmo diante das súplicas humildes do comissário.

No Casino, para mim, um dos momentos fatais é quando Ace Rothstein resolve confirmar a confiança de Ginger três vezes, sendo que ele deveria na verdade ter feito isso com seu amigo, Nicky, com o qual ele estava perdendo o contato. E ele também confia a ela a CHAVE para as suas jóias preciosas que ficam no guardadas no banco. Inclusive um momento no filme, um dos poucos, que comove é uma cena do Nicky na escada arrependido de ter se envolvido com a Ginger, e o arrependimento dele ali para mim parece ser excepcionalmente sincero.

 

Observa-se tanto em Goodfellas como em Casino um movimento de ascensão e queda dos protagonistas, em ambos por sua própria culpa, sendo que aquilo que justamente serviu como o impulso inicial para elevá-los, é também o motivo de sua queda. Só que em Casino, com o Ace Rothstein, eu não diria que seria uma queda e sim uma elevação. 

Voltando ao tema da música que abre o filme, nós podemos observar que conforme se aproxima o final, acontece uma crucificação do Ace Rothstein na mídia americana, ele passa de ser um homem louvado pela sociedade a um pária total, que vai ser rejeitado pelos amigos, por Nicky, ele também é rejeitado pelos chefes (que se assentam nessa espécie de paraíso, afastado dos problemas mais mundanos do Casino), e pela esposa, a pecadora que ele tentou e não conseguiu redimir. Porém, no final de tudo, ele retorna ao ponto onde começou, com as apostas – e ali está a redenção dele, nos jogos de azar. Ele não é Adão que foi expulso do paraíso, mas sim alguém que morreu e ressuscitou.

 Da mesma forma que um outro personagem do Scorsese, o Jake Lamotta, um homem-animal, encontra sua redenção no ringue de boxe, é nas apostas que Ace Rothstein encontra seu recomeço.


Por que Jacaré do CV?

Faz muito tempo que não escrevo aqui. A única desculpa é que eu estava ficando mais inteligente (mais forte, mais bonito) para trazer um conteúdo melhor para nosso ☭ Blog. 

Eu tinha a intenção de abandonar o blog para postar minhas coisas no instagram, pois este tem MUITO mais alcance. E talvez seja esse o problema. Meus posts logo se tornassem um pouco conhecidos seriam reportados ou então banidos pelo próprio algoritmo. E mesmo que os posts permaneçam, leitores maliciosos podem usar algo que eu disse ali para prejudicar minha vida pessoal. Vou me arriscar a isso por 10 curtidas? Não. Vou escrever aqui. Sim, logo vou começar a fazer propaganda do blog.

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Um dos mitos fundadores do que significaria SER brasileiro é uma história real, realíssima. O encontro da imagem de Nossa Senhora durante uma pesca no Rio Paraíba do Sul para mim é um dos pontos fundamentais da história do povo brasileiro, o que o une. Aquela imagem, que logo se provara milagrosa, adentraria com força no imaginário coletivo brasileiro - não é à toa que tivemos que construir a MAIOR catedral do mundo para comportar o número de fiéis.

É muito óbvio que a imagem se tornou tão popular por um propósito, que para mim é a mensagem que Deus fez por ela ser carregada, uma mensagem simples: não há barro tão podre que não possa ser consertado por Deus. Pois é isso, uma imagem de barro, caindo aos pedaços e que foi constituída. E pensar que para nos mostrar isso Deus nos envia a própria mãe??? A mulher mais repleta de beleza e glória de todas???

Acho que em parte nós, povo brasileiro, somos esse barro mutilado, e o que vai nos unir é a busca pelo nosso conserto, a busca pela verdade, que é uma busca divina - esse será o assunto de nossas conversas, de nossos colóquios, de nossas discussões.

Porém você só pode ser remendado se primeiro você se reconhecer como barro...

Sim, viemos de uma cultura civilizacional que foi a sucessora de Roma, e eu me orgulho disso. Porém a influência mais marcante, mais epidérmica, é da cidade onde você cresceu e você não consegue fugir disso. Não, amigo, seu sobrenome não te faz italiano. Seu antepassado, um pinguço do mezzogiorno, cuspiria se ele te ouvisse falando que é italiano.

O Jacaré do CV é a única arte que eu consigo olhar e ver como 100% carioca, sem influência estrangeira, um reflexo puro de uma alma revoltada, criado por alguém que, com todas suas limitações, tentou capturar o sentimento daquele grupo. Nós temos algo assim autêntico no Rio de Janeiro? Talvez a burguesia e seus imitadores pobres tenham músicas acústicas e numa ignorância abençoada sejam capazes de celebrar a vida e sua mágica (sabemos que sem álcool, maconha, sexo ou bens de consumo não conseguem) e coisas que me fazem igual aquele vídeo do carioca revoltado (https://www.youtube.com/watch?v=hkR2LM612vU) "uma falácia criada por aquela bicha enrustida do Tom Jobim... que cantava...Ipanema é tão legal, meu pai é general". Será que sou só eu que vejo que a cultura popular que querem colocar como brasileira, carioca é uma que vem de cima para baixo?

Quando Deus criou o homem, Ele o fez a partir do barro. Alguns querem se consolar achando que foi das estrelas...

Biomímica - Imitar a natureza!!!

 Numa lenda indígena, Moema e Juçara eram melhores amigas. Se Juçara fosse nadar, Moema ia junto. Se Moema fosse rezar, Juçara ia com ela. E as duas eram assim com tudo. Numa festa da aldeia, as duas se apaixonaram pelo novo chefe, Peri, mas não diziam uma à outra o nome do rapaz. 

Até que numa tarde trocaram confidências e descobriram que as duas estavam apaixonadas pelo mesmo moço. Depois da surpresa, decidiram largar o ciúme e deixar que ele mesmo escolhesse entre as duas.

Notando as meninas, o pessoal da aldeia começou a desconfiar do que se passava; o xamã conversou com elas e depois procurou o chefe. Quando perguntou a Peri de qual das duas gostava, ele ficou surpreso.

- Acho que gosto das duas...

- E o que pretende fazer? - perguntou o Xamã.

- Vamos decidir isso na floresta. Minha escolhida será aquela que acertar em pleno voo um pássaro que eu apontar.

No dia seguinte, quando apareceu uma ave branca, Peri fez sinal para as moças lançarem a flecha, que saíram ao mesmo tempo de cada arco. O pássaro caiu, com uma flecha enterrada no peito.

As setas haviam sido marcadas, para ajudar na identificação. Quando a flecha foi retirada, surgiu a vencedora. Juçara e Peri se casaram, e Moema se sentiu desamparada: não tinha mais nem a amiga, nem o seu amor. Muito infeliz, afastou-se da aldeia para chorar. Tupã ficou com pena e procurou ajudá-la.

"Sinto saudade da minha amiga e do chefe, mas não quero que vejam minha tristeza. Se me transformasse num pássaro, eu poderia ver os dois sem que eles soubessem quem eu sou."

Tupã transformou-a num pássaro comum, que não chamava a atenção. Mas quando ela presenciou a felicidade do casal, ficou muito enciumada e decidiu se afastar da aldeia; voou para o norte e escolheu a floresta amazônica como morada. Para alegrá-la, Tupã deu-lhe um canto maravilhoso: "A partir de agora, você sera o uirapuru; a beleza do seu canto vai espantar a sua tristeza."

Quando Moema fica triste, começa a cantar e se sente revigorada. Homens e mulheres procuram ouvir o uirapuru, pois sabem que ele dá sorte. Seu canto é tão poderoso que a passarinhada da floresta se cala para ouvi-lo.

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Biomímica é a prática de observar atentamente à natureza e copiá-la. No início, eu queria traçar uma relação entre o canto do Uirapuru e a música de Mozart, como se o compositor tivesse copiado o pássaro. Mas a verdade é que os dois pegam inspiração do mesmo lugar. Na raiz tupi, uirapuru quer dizer "o pássaro que não é pássaro". E de fato, seu canto chega a uns píncaros que eu nunca escutei em pássaro algum. Tão melancólico, tão sublime. Talvez por isso que tenha me lembrado de Mozart.

Acontece que Biomímica não é nada disso. No caso do uirapuru (e do Mozart também), o pássaro copia algo que não está natureza, funcionando, na minha visão, como uma espécie de mensageiro de uma voz transcendente. Não há nada igual ao canto do uirapuru. E isso só prova como a natureza é perfeita.

Por motivos como esse que o ser humano deve praticar a biomímica, pois copiar da natureza é copiar da perfeição da obra de Deus. Posso citar inúmeros exemplos de pessoas que fizeram isso.

Um caso famoso é o trem-bala japonês, Shinkansen. Em 1989, o Japão contava com os melhores trem-bala em termos de inovação. O único problema: eles eram barulhentos demais.

Para resolver isso, chamaram o engenheiro e admirador da natureza Eiji Nakatsu. Nakatsu baseou o design do trem inteiramente em três animais: A coruja, cujas penas "dentadas" serviram de modelo para o equipamento que conecta o trem aos trilhos;  o pinguim-de-adélia e sua barriga lisinha inspiraram o eixo de suporte do trem (a parte de baixo, a "barriga" do trem mesmo); e, o mais impressionante, o Martim-Pescador, que é um pássaro que mergulha na água para pegar suas presas, isso sem fazer qualquer 'splash', graças ao formato único do seu bico. E assim foi criado o trem mais silencioso e veloz que o Japão teve até hoje.

Studying Owl Wings – Monkeysee Videos

Nature Picture Library Adelie Penguin (Pygoscelis adeliae) belly sliding on  ice Antarctic Sound , Antarctica - Andy Rouse

martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona) | WikiAves - A Enciclopédia  das Aves do Brasil



O que me encanta na natureza é sua simplicidade, na forma e no conteúdo. A lua é um círculo; o sol também. Meus favoritos de desenhar quando criança. As árvores também são extremamente simples e objetivas. Eis o meu fruto: comei e espalhai. As ostras com suas pérolas, que são formadas, imagine só, de substâncias sujas indesejadas que penetram na ostra!

A natureza é um louvor a Deus, e ela me ensina que as melhores coisas são as mais simples. Quando se fala de biomímica, vejo as pessoas focando somente na parte mais material, como em inovações da engenharia, da ciência, da química, etc. Eu aqui resolvi falar do outro lado.

Como não citar as músicas de Heitor Villa-Lobos, profundamente inspiradas na mata amazônica e até mesmo uma dedicada especialmente ao nosso "Uirapuru". Eu gosto também de como a natureza ensina aquela coisa que os americanos chamam de "seize the moment", o "carpe diem", "aproveitem o dia". Eu gosto mais da palavra "seize", pois ela tem a ver com prender, agarrar. Nesse sentido, agarrar o momento e não deixar que ele passe, é fazer o melhor com ele. E o que sai quando nós aprendemos a fazer isso é magnífico. Eu mesmo agora estou aproveitando a inspiração que recebi para escrever esse texto. Não penso em escrever outra coisa; não quero; nesse momento, não pretendo cumprir outra coisa que não seja terminar esse texto bem. E assim nasce a Moonlight Sonata de Beethoven; a Eine kleine Nachtmusik de Mozart; a "Valsa do Minuto" de Chopin que imita a correria do seu cachorrinho; a melodia da Ave-maria foi pega de uma peça que essa dama se encontra a lamentar dramas mesquinhos à beira de uma lagoa. Na natureza é assim, tudo começa com uma sementinha tosca.

Lembro de uma entrevista do rapper Immortal Technique que ele conta sobre seu trabalho com crianças de bairros perigosos. Ele diz que quando chega lá as crianças só querem rimar sobre traficar drogas, atirar nas pessoas, pegar prostitutas, ostentar carros, etc. Ele não chega dizendo que isso é feio. O que ele faz é mostrar às crianças como elas podem rimar melhor sobre esses assuntos. Se querem rimar sobre prostitutas, ele tenta mostrar pra elas que aquela mulher é um ser humano. Como é a vida dela? O que fez com que ela chegasse nisso? O que lhe acontece quando ela chega em casa? Rimem sobre isso! E assim, de um tema que só teria alusões à putaria, aquilo é transformado em humanização.



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https://www.vox.com/videos/2017/11/9/16628106/biomimicry-design-nature