O filme do Studio Ghibli "Princesa Kaguya" conta a história de uma menina encontrada em um tronco de bambu. O camponês, que não havia podido ter filhos com a esposa, que a encontra resolve criar como filha aquela menininha que brilhava esplendidamente dentro do bambu. Não era uma menina qualquer. Crescia muito mais rápido que qualquer outra criança, em estatura e em inteligência. Literalmente no segundo dia de vida ela já estava conseguindo engatinhar e nesse mesmo dia aprendeu a andar.
Logo alcançou a idade das crianças vizinhas e já estava brincando com elas. Assim Kaguya passava seus dias, correndo pelas florestas, se banhando nas cachoeiras, brincando e cantando. Um garoto mais velho era particularmente mais amigo seu, o rapaz Sutemaru. O pai, em uma das suas idas e vindas da floresta de bambu, encontrou por lá um bambu que brilhava. Cortando o bambu, pérolas, jóias e pedras preciosas jorraram do corte. Ele tomou aquilo, assim como a primeira vez que encontrou Kaguya na floresta, como uma benção divina. Não demorou muito para perceber que o lugar de Kaguya não era aquele povoado campesino - ela estava destinada a ser princesa.
Tudo foi arranjado pelo pai e eles viajaram para a cidade grande. Isso aconteceu não sem machucar Kaguya, que sentiu muito em deixar os amigos do bairro para trás. Lá na cidade grande iniciou sua educação para ser uma aristocrata. A princípio ela relutou contra as lições de etiqueta da Senhora Sagami, que fora contratada para ser sua tutora particular. Por alguns momentos, chegando na mansão na cidade grande, ela havia podido desfrutar do lago, do jardim, dos pássaros cantando, do sol em sua face natural. Porém o que a aguardava era o cargo de aristocrata, quiçá de princesa até. Uma princesa não podia ser vista do lado de fora da casa sem estar propriamente vestida e maquiada. Jamais uma princesa poderia ser vista tomando banho em um lago ou cantando ciosamente em um jardim. A vida de princesa era uma vida solitária e dedicada aos afazeres diários cuidadosamente planejados. Não é questão somente de tempo. Um aristocrata tem muito tempo livre para si mesmo! Até mesmo mais do que ele gostaria, talvez! Isso é uma questão de disposição de espírito. Assistir esse filme e observar a trajetória de Kaguya até o final de sua vida aqui na terra, me fez perceber isso.
Sempre que eu assistia filmes do Kurosawa ou animações japonesas e me deparava com essas moças japonesas, filhas de nobres, que eram obrigadas a nunca sair de casa e permanecer sempre dentro de seus domos, fora da vista de todos, eu sempre achei cruel e desumano. No entanto, eu entendi: se alguém quer se elevar acima de si mesmo e dos outros, explorar seu máximo potencial, tem que buscar convívio com pessoas melhores que si.
E nunca é supresa que esse jovem seja rico e que Jesus, o Rei de todos, seja pobre, nascido em um estábulo, símbolo da maior simplicidade. Assim também é o Bambu para o oriental*. Ser rico nesse sentido não é necessariamente ter dinheiro. Mas ter e ter muito. Ter muitos colegas, muitas alegrias, muitos confortos, muito ócio, muita facilidade, muitos familiares. No campo, era o que Kaguya tinha.
Essa parábola fala de abdicar. Que é um rei ou rainha sem se abdicar? Kaguya passava seus dias agora mais sozinha, afora a companhia da Senhora Sagami, seus pais, seus livros e sua harpa. E a Lua, que a chamava constantemente.
Um fato sobre morar no Brasil é viver o tempo todo com a turminha do seu bairro. As mesmas motivações da elite são as da turminha do bairro. Numa sociedade normal, isso funciona como uma pirâmide, que segue a ordem econômica e política. Na base temos a turminha do bairro, que é a maioria. Daí vai ascendendo: turminha da cidade, turminha da capital, turminha da metrópole, turminha de Roma, turminha de Paris, e termina na turminha da Áustria, a capital intelectual do mundo, onde a turma já está reduzida a uns poucos 5 intelectuais com quem você poderia dialogar. E acima dessas todas tem a turma dos santos. Se você participar dessa e tiver um amigo sequer na vida, acho que seria muitíssimo sortudo. Quanto mais vai ascendendo na pirâmide, menor o número de pessoas com quem consegue comungar. O que impressiona no Brasil é como o diálogo da elite acadêmica, de qualquer programa da grande mídia, de qualquer programa acadêmico da televisão, da rádio, e qualquer novela publicada, esteja no mesmo nível de debate do povo. Isso não é saudável.
Por essa razão, os aristocratas passam os dias caminhando sós nos seus jardins, comungando consigo mesmos. Seus olhos miram para o alto, seu tempo é ocupado com leituras, música, oração e compromissos maçantes. Nobres devem ficar em presenças de nobres. Por isso homens como D.Pedro II passavam tanto tempo com os livros, convivendo com os grandes autores.
E aí eu pergunto: quem gostaria de ser rei, e viver todos os dias olhando para a lua e ansiando por um Reino que não é o seu? Esperando que tudo termine para se ver liberto dessa solidão? Acho que todos que realmente tinham uma alma nobre e foram escolhidos para ser reis ou rainhas sentiram essa vontade de ser servos.
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