Esse filme me fez pensar naquela coisa de juntar o seu
talento com a sua profissão. A Kiki sonha em ir para uma cidade nova e
completar o treinamento de bruxa. Muda de cidade, mas quando chega lá não
consegue exatamente colocar em prática a habilidade que tem – que é voar com a
vassoura – e nem desenvolver outras habilidades ligadas à feitiçaria. É muito
frustrante pra ela.
Engraçado ela ter uma habilidade única como voar e não ter
um emprego em cada esquina. Acho que o mundo hoje em dia é muito assim para
quem é artista. A pessoa tem um talento artístico, mas não acha ninguém
interessado nesse talento, porque ele não se encaixa no mercado atual. Lembrou-me
de uma série animada que estou assistindo: “Rick e Morty”.
Hoje mais do que nunca o que dá dinheiro é usar a
inteligência e para a maioria dos trabalhos bons o que pesa é a inteligência.
Nesse desenho Rick e Morty dá para ver, no entanto, que a inteligência
valorizada no mercado hoje é somente a inteligência aplicada (o tipo de
inteligência voltada em matemática, engenharia, arquitetura, química – esse
tipo de coisa mais técnica.) Enquanto isso, a inteligência que chamamos de “geral”
( que é consciência moral, percepção do transcendente, capacidade de julgamento
imparcial, empatia, criatividade) é ignorada pelas pessoas e muito menos é
estimulada pela escola. Isso é engraçado, eu estava observando isso até
estudando um pouco da bolsa de valores. Hoje em dia ninguém quer especular
mais.
No começo do século XX até o início do XXI o que mais dava
dinheiro era especular. Especular é investir em empresas pequenas, projetos sem
muito sentido, em artistas, gênios criativos. A família mais rica do mundo
hoje, os Rockfeller, começaram assim, especulando. Chegava um americano comum e falava assim pra ele: “Olha, eu tenho uma escavadeira, tenho tempo e quero ficar
o dia inteiro cavando para achar petróleo. Se você investir em mim pode ficar
com parte do que eu tirar”. Ele investiu em milhares de pessoas desse jeito. Passou
um tempo e se tornou o maior vendedor de petróleo do mundo. A mesma coisa com
os caras que investiram na Microsoft e na Apple. Hoje muita gente se arrepende
de não ter investido nessas empresas no começo.
Acho que no final, pode ser uma merda trabalhar com aquilo
que você ama. A carga estressante de serviço que você tem pode fazer com que
enjoe daquilo que amava fazer e até vá perdendo as habilidades. Lá fora eles
chamam isso de Burn-out ou Creative Exhaustion. Já vi desenvolvedores de jogos
falando disso. O cara estuda a vida toda para um dia poder fazer o design de
uma obra de vídeo game e chega lá e só encontra trabalho desenhando boneco do
Fortnite. Já vi também um vídeo sobre uma animadora japonesa que tem que fazer
milhares de desenhos por dia por dez dólares. A casinha da menina nem mesa
tinha e cama ficava no chão.
Eu gostei desse ponto do filme. A Úrsula é uma contra-parte
da Kiki. Ela resolveu focar só nas pinturas dela e trabalhar de outra coisa sem
relação, ganhando pouco, mas tendo ainda tempo para a paixão dela. Isso eu
achei importante, não forçar muito e aceitar a realidade. Talvez você não vá
ter a oportunidade de “mostrar o seu talento para o mundo” e poder trabalhar
com aquilo que ama; e talvez isso seja até bom, para não te desgastar daquilo que
você gosta e você poder fazer sem a preocupação com datas de entrega, tempo.
Saber sacrificar isso é importante e, afinal, sempre ainda vai sobrar tempo
para fazer aquilo que gosta. Eu mesmo, trabalhando e tendo que estudar para a
faculdade ainda encontro tempo para estudar as coisas que eu realmente gosto.
Isso é bom também que eu não me enfastio com as coisas que eu gosto e sempre
estou com sede de fazer mais.

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